mergulhem-se

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Oceano Mar - Alessandro Baricco, Romance

[se eu tivesse que esconder meu nome (minha alma, minha palavra, meu corpo) em um livro seria esse] [em colchetes para ninguém ouvir]

Poesia em forma de prosa (que poderia também ser um ensaio filosófico, um romance, ou uma espécie de bíblia com os axiomas mais ímpios do oceano inscritos aqui e formulados em algum lugar qualquer do universo etc etc), Alessandro Baricco descorre um tratado sobre o mar que só quem o conhece, mergulhou de fato em seu infinito ventre (e falo sobre a intensidade e não quantidade - um único banho às vezes basta) poderá sentir do que se fala, se vomita, se música, se palavra, se mar. É espelhar a si mesmo, horrível e doce. Certo e incerto como só o mar, "no mar nunca se sabe".

O Romance conta (canta?) muitas histórias, são personagens que se desdobram e se mergulham através do contato com o oceano, protagonista principal deste livro. Um navio da marinha francesa que naufraga; um pintor, Plasson, que mantém uma obsessão pelo mar e só consegue pintar coisas que estejam intimamente conectadas à ele, tanto que molha seus pincéis, em uma meta-linguagem linda, em águas do mar para pintar. Bartleboom, um cientista que quer descobrir onde termina o mar e escreve cartas de amor à mulher da sua vida que ainda não conheceu; Elisewin, menina doente que sai de seu castelo acompanhada pelo tutor, Padre Pluche, para curar-se no mar; Adams e Savigny, náufragos; crianças estranhas e mágicas; um velho que benze o mar... E tantos outros que chegam e se transformam ao redor da estalagem Almayer bem em frente
ao mar.

"A única pessoa que realmente me ensinou alguma coisa, um velho que se chamava Darrell, dizia sempre há três tipos de homens: os que vivem diante do mar, os que se lançam ao mar, e os que do mar conseguem voltar, vivos. E dizia: você verá que surpresa quando descobrir quais são os mais felizes." pág 118

"- Não complique as coisas, Padre Pluche, a questão é simples. O senhor acredita realmente que Deus existe?
- Bem, agora, existir parece-me um termo meio excessivo, mas creio que ele esteja, é isso, de um jeito muito particular, esteja." pág 94

"Mas depois a vida não se desenrola do jeito que você imagina. Faz o seu caminho. E você o seu. E não é o mesmo caminho. Assim... Não que eu quisesse ser feliz, isto não. Queria... salvar-me, é isso: salvar-me. Mas compreendi tarde de que lado era preciso seguir: do lado dos desejos. A gente espera que sejam outras as coisas que salvam as pessoas: o dever, a honestidade, sermos bons, sermos justos. Não. Os desejos é que salvam. São a única coisa verdadeira. Você fica com eles e será salva. Mas eu compreendi isto tarde demais. Se você der tempo à vida, ela toma um rumo estranho, inexorável: e você percebe que àquela altura não pode desejar algo sem se machucar. É quando tudo vai para o espaço, não há como escapar, mais você se agita e mais a rede se emaranha, mais você se revolta e mais você se fere. Não há como sair. Quando era tarde demais, eu comecei a desejar. Com toda a força que tinha. Machuquei-me tanto, mas tanto que você nem pode imaginar." pág 79, 80





Oceano Mar
Alessandro Baricco
trad. Roberta Barni
Ed. Iluminuras
222 págs








Alessandro Baricco (Turim, 25 de janeiro de 1958) é um escritor, crítico musical e diretor italiano, um dos mais importantes da ficção italiana contemporânea.

4 comentários:

Anônimo disse...

Os techos me tocam muito e me remetem demais à você.

E você, como sempre, fazendo poesia com as coisas que te tocam no fundo.
Obrigada por me mostrar (se não, ensinar..) coisas tão especiais.

Amor,

Julia disse...

ficou me martelando também... acho que vou ter que testar as três formas para descobrir. (só que uma delas já entendi que não saio viva)

beijo e mar!

Anônimo disse...

não?? só se escreve esse tanto estando vivo, mesmo q se saia tateante e machucado, com os olhos ardendo e os ouvidos cheios d`água. mas VIVO

Julia disse...

talvez o que é estar vivo pra você não seja o mesmo para mim.