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domingo, 23 de janeiro de 2011

Reflexos Num Olho Dourado - Carson Mccullers, Romance

Sensação de uma espuma que não vai de lugar pra lugar nenhum. E daqui a pouco se dissipa. Sombra branca do oceano. Estranho. Parece um lugar intacto do corpo. Como tentar alcançar o meio das costas com os dedos. Coisas para pessoas sem costela ou dançarinos. Aberrações que são tão parecidas com a gente que devemos ser nós aberrantes e não eles, eles-nós. Pequeno romance, diferente de O Coração é um Caçador Solitário que vai por páginas e páginas entrando num mundo tão intimo e tão - espuma - de cada personagem que você parece que até entende - até. Neste a coisa acontece mais rápido, mas sempre dentro de uma jornada meio netuniana. De outra ordem de compreensão. Não é muito lógica mas corresponde em algum lugar por dentro e em certo momento faz um click. Musical. Piano - como a própria Carson era tão ficcionada. Uma das personagens gosta de Bach. Um criado negro tenta aprender francês. Os casais traem uns aos outros numa espécie de acordo tácito - completamente doloroso. Um soldado gosta de andar nu em cima de um cavalo sem sela. Um capitão do exército americano em crise existencial tem uma mistura de atração e ódio por um soldado novo. Mesclas de sensações que não constroem nada... Talvez dê pra pensar que o caminho aqui é mais importante do que a direção para onde se aponta. Maresia. Espuma. Nevoada.

Reflexos num Olho Dourado
Carson McCullers
Ed. José Olympo
144 págs

segunda-feira, 22 de março de 2010

A Balada do Café Triste, Carson McCullers, Contos

(Railroad Sunset, 1929, Edward Hopper)

Depois de ler Carson McCullers, como em "O Coração é um Caçador Solitário", me invade uma espécie de sutileza, ternura, que não sei explicar. Seu olhar é de uma inocência quase infantil. Tem para com os que descreve um carinho e uma sensibilidade tão grande que nos faz olhar para o gesto mais feio com olhos menos severos, nos dá a possibilidade de reconciliar-se com aquilo que seria "intragável".

Nos sete contos deste livro, McCulleres, trás a visão mais sutil e humana de cada história, as quais fossem narradas por escritores só um pouquinho mais duros, perderiam completamente o encanto. Por exemplo, em "a balada do café triste", a forma com que descreve o amor da gigantesca e rude Srta. Amélia pelo corcunda Lymon que não media mais do que 1,10 metro de altura; ou no jeito com que descreve o Uísque feito pela Srta. Amélia que amenizava a vida de qualquer um daquela cidade nos fins do mundo; ou o também amor de um bandido inescrupuloso. Como não transformar os nossos olhos diante das deformidades, do grotesco, do inusual? Como não ter empatia para/com eles de forma tão natural e delicada sem que essa empatia nos soe estranha ou incômoda? É o que me parece quando a leio. Em "Wunderkind" principalmente e em "O transeunte" trás mais uma vez a sua paixão pelo piano que é também retratada de forma autobiografica na figura de Mick Kelly em "O Coração é um Caçador Solitário", o piano também descrito de forma incomum, nos transpõe quase como dentro da música, mesmo para quem não é familiar ao reino musical. Gosto especialmente de "Wunderkind" pela qualidade como são descritos os pequenos gestos, a mão de um professor de piano, seus dedinhos em movimento, os silêncios enormes que há entre o gesto e outro, dão uma enorme intensidade para o que com um descuido poderia se tornar raso.

Deforminades, meninos prodígio, alcoólotras, apaixonados obsessivos, transeuntes, bandidos, mentirosos, esquizofrênicos etc, sempre ao lado da minoria, são dessas pessoas que falam estas histórias, que com "um mínimo de palavras e um máximo de intensidade" como descreveu o C.F.Abreu, me remetem também à existência de McCullers, curta e intensa. Em dado momento de sua vida teve o seu lado esquerdo do corpo paralisado e já no fim, perto de sua morte aos 50 anos, escrevia deitada em sua cama com apenas um dos dedos. Talvez passe por aí a experiência, a visão tào dócil com que retrata os excluídos, a solidão etc.


"A srta. McCullers e talvez o sr. Faulkner são os únicos escritores depois da morte de D.H. Lawrence com uma sensibilidade poética original. Eu prefiro a srta. McCullers ao sr. Faulkner, porque ela escreve com mais clareza, e a prefiro a D.H. Lawrence porque ela não tem mensagem" Graham Green sobre Carson McCullers.


A Balada do Café Triste
Carson McCullers
Ed. José Olympio
191 págs



(ler sobre Carson McCullers nas postagens anteriores)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

O Coração é um Caçador Solitário - Carson McCullers, Romance


O Coração é um Caçador Solitário de Carson McCullers é um livro muito sofrido, de leitura às vezes quase infantil, mas de uma crueza que nos depara o tempo todo com a inevitável solidão humana. O livro narra a história de cinco personagens que às cegas procuram respostas e rostos humanos para as suas angústias, pensamentos, desejos, ideologias internas. Em vão os cinco personagens parecem vagar no escuro cada vez que tentam falar e discorrer com os outros sobre o que se passa por dentro deles, cada um à sua maneira. O único personagem que parece dar algum alento aos seus pobres corações aflitos em busca por co-existência é um mudo, John Singer, que os "escuta" educadamente sorrindo, com paciência, a cada um que vai visitá-lo. Este é o único que une todos os personagens de maneira mais direta e os faz sentir-se um pouco menos sofridos em sua solidão diária, embora este mesmo seja obrigado em certos momentos da obra a mergulhar dentro de si mesmo, nas noites escuras ou seja lá em quais situações, em que parece buscar alguma resposta para sua própria existência sozinho. Resposta é o que todos procuram, mas resposta para quais perguntas? É um dos questionamentos que Biff Brannon um dos personagens se faz ao longo do Romance. É impossível não se intrigar com os gritos surdos de cada um e não olhar para si mesmo e se deparar também com a solidão que imprescindivelmente vivemos ou somos.


O Coração é um Caçador Solitário
Carson McCullers
Editora Cia das Letras
453 páginas


Carson McCuller (19 de fevereiro de 1917, Columbus, Georgia – 29 de setembro de 1967, Nyack, New York) foi uma escritora Norte-Americana e escreveu este livro com apenas 22 anos de idade, sendo seu primeiro romance.