mergulhem-se

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terça-feira, 2 de julho de 2013

"o que foge ao corpo” por Leonardo Marona

"o que foge ao corpo”

estou morto e creio
numa revolução
mas estou vivo e isso
é a grande revolução
não comprovada por-
que admito não sei
que língua usar se me
suam os ossos, mas
amo os que deixam
entregues à causa
o que é câncer de rotina
o que estraga o poema
exato porque o amor
é bravo como um potro
e não se fazem potros
a não ser pela bonita
história e já não sabia
agir o mundo-humano
e onde estávamos nós
enquanto dividíamos
a falta e a cerveja ruim?


Leonardo Marona


mais em ASA NISI MASA

terça-feira, 7 de maio de 2013

sobre novos poetas, vanguarda e publicação

"Even though some say that an avant-garde in literature no longer exists, the smaller independent Publisher is itself still a true avant-garde, its place still out there, scouting the unknown.

And as long as there is poetry, there will be an unknown, as long as there is an unknown there will be poetry. The function of the independent press (besides being essentially dissident) is still to discover, to find the new voices and give voice to them – and then let the big publishers have at them."

(in "city lights pocket poets anthology"'', introduction by 
Lawrence Ferlinghetti )



traduzindo:

"Mesmo que alguns digam que uma vanguarda na literatura não existe mais, o pequeno editor independente é em si ainda uma verdadeira vanguarda, o seu lugar ainda está lá fora, explorando o desconhecido.

E enquanto houver poesia, haverá um desconhecido, e enquanto houver desconhecido, haverá poesia. A função da publicação independente (além de ser essencialmente dissidente) ainda está no “descobrir”, para encontrar as novas vozes e dar voz à elas – e então deixar que as grandes editoras as capturem."

(em "city lghts pocket poets anthology, introdução por Lawrence Ferlinghetti
) 

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

XIX (cantares), Hilda Hilst

Corpo de carne
Sobre um corpo de água.
Sonha-me a mim
Contigo debruçada
Sobre este corpo de rio.
Guarda-me
Solidão e nome

E vive o percurso
Do que corre
Jamais chegando ao fim.

Guarda esta tarde
E repõe sobre as águas
Teus navios. Pensa-me
Imensa, iluminada
Grande corpo de água
Grande rio
Esquecido de chagas e afogados.

Pensa-me rio.
Lavado e aquecido da tua carne.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Poema XIV, Roberto Piva

vou moer teu cérebro. vou retalhar tuas
                      coxas imberbes & brancas.
           vou dilapidar a riqueza de tua
                      adolescência. vou queimar teus
                      olhos com ferro em brasa.
                vou incinerar teu coração de carne &
                                 de tuas cinzas vou fabricar a
                                 substância enlouquecida das
                                           cartas de amor.





de "20 Poemas com brócoli", Roberto Piva

segunda-feira, 25 de junho de 2012

O raio sobre o lápis, Maria Gabriela Llansol, poema...

V

a conclusão de que não há abismo, e que a infância não
pára de desenvolver-se e crescer,
é um novo princípio de realidade, de morte, de velhice:
eu não deixo de viver no mundo interior e exterior das
metamorfoses flutuantes; é já dia, mas a noite que con-
duz a esperança no pensamento, e sobre si própria, não
acabou.
Não acabou definitivamente;
onde estará, protegendo-se da luz, o sapo que brilha?
Eu tenho a intuição, Aramis, de que os monstros
são as tentativas mais puras do Universo.
«Olha-os, e não os mates.»

sábado, 16 de junho de 2012

Do Desejo, Hilda Hilst

egon schiele


III

Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

"Ferida", Paulo Leminski, poema

         essa a vida que eu quero,
querida

         encostar na minha
a tua ferida





do livro La Vie en Close, P. Leminski

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Jazz, Ângela F. Marques

voltei a ouvir jazz com a fúria dos vinte anos
a loucura dos vinte e cinco
e a lucidez dos trinta:
ávida e serena.

Porto, 1988




 ouço aqui jazz(em)
o corpo e as palavras
vazias com o tempo
escorregadio por entre
os dedos sequiosos
de alguma verdura
perdida pelos cinquenta.

irónica idade tranquilamente
debruçada sobre
a morte.


Porto, 2012
para ler mais Ângela F. Marques

segunda-feira, 26 de março de 2012

Poeta, Rainer Maria Rilke

Já te despedes de mim, Hora.
Teu golpe de asa é o meu açoite.
Só: da boca o que faço agora?
Que faço do dia, da noite?

Sem paz, sem amor, sem teto,
caminho pela vida afora.
Tudo aquilo em que ponho afeto
fica mais rico e me devora.

domingo, 11 de março de 2012

"Oqueelatinha" por Emerson Alcalde




"Oqueelatinha"

A senhora estava andando pela rua quando caiu
O que ela tinha?
Tonturas, dores, fome, frio? Não se sabia. Ela não dizia o que tinha
Nossa, você viu, mas o que ela tinha?

Lá tinha um cãozinho deitado tremendo de frio
latia lambia a tia
A multidão parou pra perguntar o que ela tinha
oqueelatinha
Antes ninguém queria saber o que ela tinha
Mas agora todos querem saber O QUE ela tinha

Do tinha, ré tinha, fá tinha, sol tinha
Mas afinal de contas o que é latinha?
Uma lata pequena o antonimo de latão
Não. Não?. Não!?
A senhora morreu deitada no chão abraçada com a unica coisa que tinha
SUA LATINHAS

Poesia do livro (A) MASSA, Emerson Alcalde, Ed. Edicon

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Hoy ya ha pasado, Manuel Graña Etcheverry, poema

HOY YA HA PASADO

Ya va pasando el día. Ya los libros
no pueden. Ya la música no alcanza.
La evasión es inútil, solitario.
Ya tiene el espejo allí a tu frente:
mírate, solo, humeante el cigarrillo,
mira en el cuarto tu presencia sola.
No están sus manos ni sus ojos vienen,
ni su voz se te acerca, ni su beso,
ni se llega su amor para buscarte.
Has consumido sueños en la espera:
edificios de tenues armazones
que las horas gastaron poco a poco.
Y las sonoras ruinas de estupendos
coloquios del amor que imaginaste
han buscado su tumba en las paredes.
No te bastó el recuerdo: la querías
viviente y a un lado y en tus brazos.
Pero el día se va sin que ella venga.
Hoy no llegó la paz y tienen miedo.
No quieres en cristales retratarte
ni el agua del pasado te refresca.

Pero el día se va…cállalo, olvida.
Besa en el aire su mejilla ausente.
Hoy no llegó la paz. Hoy ya ha pasado.



----traduzindo----


HOJE JÁ PASSOU

Já o dia passa. Já os livros
não podem. Já a música não alcança.
A evasão é inútil, solitário.
Já tens o espelho a tua frente:
mira-te, sozinho, fumando o cigarro,
mira no quarto tua presença só.
Não estão suas mãos nem seus olhos vêm,
nem sua voz se aproxima, nem seu beijo,
nem chega seu amor para buscar-te.
Consumiste sonhos na espera:
edifícios de tenues quadros
que as horas gastaram pouco a pouco.
E ruínas sonoras de estupendos
colóquios de amor que imaginaste
têm buscado sua tumba nas paredes.
Não te bastou a lembrança: desejava-a
vivendo e perto e em teus braços.
Mas o dia se vai sem que ela venha.
Hoje a paz não veio e tens medo.
Não quer retratar-se em cristais
nem a água do passado te refresca.

Mas o dia se vai... cala-o, esqueça.
Beija no ar seu rosto ausente.
Hoje a paz não veio. Hoje já passou.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Conselheiro - Batatinha

Sou profissional do sofrimento
Professor do sentimento
Do amor fui artesão

Mestre do viver já fui chamado
Conselheiro do reinado
Cujo rei é o coração
Mestre do viver já fui chamado
Conselheiro do reinado
Cujo rei é o coração

Quebrei do peito a corrente
Que me prendia à tristeza
Dei nela um nó de serpente
Ela ficou sem defesa
Mas não fiquei mais contente
Nem ela menos acesa

Tristeza que prende a gente
Dói tanto quanto a que é presa
Abre meu peito por dentro
O amor entrou como um raio
Saí correndo do centro
Dentro do vento de maio
Dentro do vento de maio


terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Por um novo catálogo de tipos - Waly Salomão

Por aqui tem feito D dias lindos
Procurar um outro AR
ALTERAR
E o meu ser se esgota na procura patológica
Do que nem eu sei o que é
E esse é
Não há nunca
Em parte alguma
Prazer algum
Mantra mito nenhum
Que me
Baste.


ALTERAR


do livro "O MEL DO MELHOR", Waly Salomão, ed. Rocco

sábado, 24 de dezembro de 2011

poema I de "Prelúdios-intensos para os desmemoriados do amor", Hilda Hilst

I

Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Teresa, poema, Manuel Bandeira

A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna


Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)


Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Why I am Not A Painter - Frank O'hara, poema


Why I am Not A Painter


I am not a painter, I am a poet.
Why? I think I would rather be
a painter, but I am not. Well,

for instance, Mike Goldberg
is starting a painting. I drop in.
"Sit down and have a drink" he
says. I drink; we drink. I look
up. "You have SARDINES in it."
"Yes, it needed something there."
"Oh." I go and the days go by
and I drop in again. The painting
is going on, and I go, and the days
go by. I drop in. The painting is
finished. "Where's SARDINES?"
All that's left is just
letters, "It was too much," Mike says.

But me? One day I am thinking of
a color: orange. I write a line
about orange. Pretty soon it is a
whole page of words, not lines.
Then another page. There should be
so much more, not of orange, of
words, of how terrible orange is
and life. Days go by. It is even in
prose, I am a real poet. My poem
is finished and I haven't mentioned
orange yet. It's twelve poems, I call
it ORANGES. And one day in a gallery
I see Mike's painting, called SARDINES.





-------




Por que eu não sou pintor


Eu não sou pintor, sou poeta.
Por quê? Eu acho que preferiria ser
pintor, mas não sou. Bem,

por exemplo, Mike Goldberg
começa um quadro. Eu dou
uma passada. "Senta e bebe alguma coisa",
ele diz. Eu bebo; nós bebemos. Eu dou
uma olhada."Você pôs SARDINHAS neste."
"É, precisava de alguma coisa ali."
"Ah." Eu vou e os dias vão-se
e dou outra passada. O quadro
está indo, e eu vou, e os dias
vão-se. Dou uma passada. O quadro está
pronto. "Cadê SARDINHAS?"
Tudo o que sobrou são
letras, "Estava exagerado", diz Mike.

E eu? Um dia começo a pensar sobre
uma cor: laranja. Eu escrevo um verso
sobre laranja. Não demora a tornar-se
uma página inteira de palavras, não de versos.
Então, mais uma página. Deveria ter
tantas coisas mais, não de laranja, de
palavras, de como laranja é horrível,
e a vida. Dias vão-se. É assim mesmo
em prosa, eu sou poeta de verdade. Meu poema
está pronto e eu ainda não mencionei
laranja. São doze poemas, eu chamo de
LARANJAS. E um dia numa galeria
eu vejo o quadro de Mike, chamado SARDINHAS.


tradução de Ricardo Domeneck

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Funeral Blues, W. H. Auden, poema..

FUNERAL BLUES (1936)

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crêpe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.

The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood;
For nothing now can ever come to any good.


-----tradução Nelson Ascher------



BLUES FÚNEBRE


Detenham-se os relógios, cale o telefone,
jogue-se um osso para o cão não ladrar mais,
façam silêncio os pianos e o tambor sancione
o féretro que sai com seu cortejo atrás.

Aviões acima, circulando em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Pombas de luto ostentem crepe no pescoço
e os guardas ponham luvas negras como breu.

Ele era norte, sul, leste, oeste meus e tanto
meus dias úteis quanto o meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto.
Julguei o amor eterno: quem o faz se engana.

Apaguem as estrelas: já nenhuma presta.
Guardem a lua. Arriado, o sol não se levante.
Removam cada oceano e varram a floresta.
Pois tudo mais acabará mal de hoje em diante.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Poemacto II, Herberto Helder, poema..

Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa,
uma só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.
Sei que os campos imaginam as suas próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos de rosas.
E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes sangra e canta.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

- Era uma casa - como direi? - absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metia as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.

As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
--- Era húmido, destilado, inspirado.

Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta - como direi? -
um sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda melancolia,
com furibunda concepção.
Com alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete.
Sou alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O Jardim Botânico, poema, Adam Zagajewski



No Jardim Botânico de Cracóvia
deparei-me com uma árvore Asiática
com o nome de Metasequoia Chinesa – uma bela árvore
com folhas agulha achatadas.
Mas porquê metasequóia – e não apenas uma sequóia normal?

A metasequóia cresce além de si mesma?
Será que se eleva acima das outras árvores?
Até mesmo as plantas começaram a recorrer
ao misterioso jargão
de certos sábios académicos?

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

pianista não, poema, Ana Roman Fonseca

você pegou minhas mãos como quem corta folhas.
como quem pinta quadros na terra.
você pegou minhas mãos
e as transformou em buquês.
você olhou minha veias e disse que eu devia ser escultura.
você olhou minhas mãos pequenas
e achou que elas eram grandes.
você me olhou e não viu nada.
nada do que eu era,
mas viu muita coisa.
você viu mãos grandes
e quando você descobriu que elas eram pequenas
você foi embora.
então eu peguei minhas mãos pequenas
e montei um buquê.
então eu peguei minhas mãos pequenas
e fiz um poema.
então eu peguei minhas mãos pequenas
e cometi uma bobagem.
então minhas mãos me pareceram grandes,
e eu percebi que ter mãos era tentar entender
talvez o por que
de algumas mãos serem grandes,
e outras pequenas.