mergulhem-se

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Ser Brotinho (Paulo Mendes Campos)

Ser brotinho não é viver em um píncaro azulado: é muito mais! Ser brotinho é sorrir bastante dos homens e rir interminavelmente das mulheres, rir como se o ridículo, visível ou invisível, provocasse uma tosse de riso irresistível.

Ser brotinho é não usar pintura alguma, às vezes, e ficar de cara lambida, os cabelos desarrumados como se ventasse forte, o corpo todo apagado dentro de um vestido tão de propósito sem graça, mas lançando fogo pelos olhos. Ser brotinho é lançar fogo pelos olhos.

É viver a tarde inteira, em uma atitude esquemática, a contemplar o teto, só para poder contar depois que ficou a tarde inteira olhando para cima, sem pensar em nada. É passar um dia todo descalça no apartamento da amiga comendo comida de lata e cortar o dedo. Ser brotinho é ainda possuir vitrola própria e perambular pelas ruas do bairro com um ar sonso-vagaroso, abraçada a uma porção de elepês coloridos. É dizer a palavra feia precisamente no instante em que essa palavra se faz imprescindível e tão inteligente e natural. É também falar legal e bárbaro com um timbre tão por cima das vãs agitações humanas, uma inflexão tão certa de que tudo neste mundo passa depressa e não tem a menor importância.

Ser brotinho é poder usar óculos como se fosse enfeite, como um adjetivo para o rosto e para o espírito. É esvaziar o sentido das coisas que transbordam de sentido, mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto. É aguardar com paciência e frieza o momento exato de vingar-se da má amiga. É ter a bolsa cheia de pedacinhos de papel, recados que os anacolutos tornam misteriosos, anotações criptográficas sobre o tributo da natureza feminina, uma cédula de dois cruzeiros com uma sentença hermética escrita a batom, toda uma biografia esparsa que pode ser atirada de súbito ao vento que passa. Ser brotinho é a inclinação do momento.

É telefonar muito, estendida no chão. É querer ser rapaz de vez em quando só para vaguear sozinha de madrugada pelas ruas da cidade. Achar muito bonito um homem muito feio; achar tão simpática uma senhora tão antipática. É fumar quase um maço de cigarros na sacada do apartamento, pensando coisas brancas, pretas, vermelhas, amarelas.

Ser brotinho é comparar o amigo do pai a um pincel de barba, e a gente vai ver está certo: o amigo do pai parece um pincel de barba. É sentir uma vontade doida de tomar banho de mar de noite e sem roupa, completamente. É ficar eufórica à vista de uma cascata. Falar inglês sem saber verbos irregulares. É ter comprado na feira um vestidinho gozado e bacanérrimo.

É ainda ser brotinho chegar em casa ensopada de chuva, úmida camélia, e dizer para a mãe que veio andando devagar para molhar-se mais. É ter saído um dia com uma rosa vermelha na mão, e todo mundo pensou com piedade que ela era uma louca varrida. É ir sempre ao cinema mas com um jeito de quem não espera mais nada desta vida. É ter uma vez bebido dois gins, quatro uísques, cinco taças de champanha e uma de cinzano sem sentir nada, mas ter outra vez bebido só um cálice de vinho do Porto e ter dado um vexame modelo grande. É o dom de falar sobre futebol e política como se o presente fosse passado, e vice-versa.

Ser brotinho é atravessar de ponta a ponta o salão da festa com uma indiferença mortal pelas mulheres presentes e ausentes. Ter estudado ballet e desistido, apesar de tantos telefonemas de Madame Saint-Quentin. Ter trazido para casa um gatinho magro que miava de fome e ter aberto uma lata de salmão para o coitado. Mas o bichinho comeu o salmão e morreu. É ficar pasmada no escuro da varanda sem contar para ninguém a miserável traição. Amanhecer chorando, anoitecer dançando. É manter o ritmo na melodia dissonante. Usar o mais caro perfume de blusa grossa e blue-jeans. Ter horror de gente morta, ladrão dentro de casa, fantasmas e baratas. Ter compaixão de um só mendigo entre todos os outros mendigos da Terra. Permanecer apaixonada a eternidade de um mês por um violinista estrangeiro de quinta ordem. Eventualmente, ser brotinho é como se não fosse, sentindo-se quase a cair do galho, de tão amadurecida em todo o seu ser. É fazer marcação cerrada sobre a presunção incomensurável dos homens. Tomar uma pose, ora de soneto moderno, ora de minueto, sem que se dissipe a unidade essencial. É policiar parentes, amigos, mestres e mestras com um ar songamonga de quem nada vê, nada ouve, nada fala.

Ser brotinho é adorar. Adorar o impossível. Ser brotinho é detestar. Detestar o possível. É acordar ao meio-dia com uma cara horrível, comer somente e lentamente uma fruta meio verde, e ficar de pijama telefonando até a hora do jantar, e não jantar, e ir devorar um sanduíche americano na esquina, tão estranha é a vida sobre a Terra.


Texto extraído do livro “O Cego de Ipanema”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1960, pág. 15.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Fantasma - Francisco Slade, Romance


Fantasma conta a história de um escritor anti-social e melancólico, João, e o personagem da peça que este primeiro está escrevendo, Arto. As duas histórias se misturam e se intercalam ao longo do livro quando uma companhia de teatro resolve encenar a peça. Em um dos capítulos deste livro, além de mil outras coisas, tem a descrição de uma trepada tão (....forte, impactante, marcante, engulho, tesão...?) sem palavra que estou que só por isso já me valeu a pena ter lido. O livro em si, demora um pouco pra pegar, começa lento e é preciso fazer um esforço para continuar, mas em certa parte do meio engrena numa velocidade onde não é possível parar mais. Além de ter me deixado com verdadeira repugna, constrangimento, em alguns momentos.

"Até que ponto se pode esquecer de si mesmo... E lembrar é como alguém que volta, um desconfortável encontro na rua com alguém que não se vê há muito tempo; a intersecção de dois espectros. Encontrar-se assim repentinamente consigo mesmo, com aquele que se julgava morto."(...) "Tenho medo, medo de ficar triste como eu realmente sou na frente de alguém. Preciso parar a minha vontade de chorar - afinal, que homem pode chorar o tempo todo, cada segundo?"(...) (Fantasma, página 146)

Fantasma
Francisco Slade
Editora 7letras
192 páginas


Francisco Slade (Rio de Janeiro, 1978) é um escritor brasileiro, formado em cinema. Já publicou Domingo (2004) e Fantasma (2008), ambos pela 7Letras.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Um pedaço de canção perdida - Cecília Meireles













Tudo ficou para longe. E perdido. Diferente. Irreconhecível. Que aconteceu? Ninguém sabe. No entanto, os olhos mais familiarizados com eles não poderiam de novo encontrar os velhos acontecimentos.

Por isso, começaram a contá-los outra vez, um por um. Certamente devia existir um lugar para a emoção. Mas a emoção também não vinha mais. Estava paralisada no fundp da alma, contemplando, insensível. E a narrativa carregada de desgraças passava como um cântico trágico numa língua que não o entende. Certamente, convinha chorar. Mas em que ponto? Todas as coisas estavam assim desequilibradas.

Conviria também falar, protestar, rugir. Porque era nosso amor que se estava partindo aos pedaçoes, compreendes? Era a nossa vida que estava sendo quebrada, percebes? E diziam-nos, diziam-nos, diziam-nos. E não era assim. Não tinha sido. Não fora de nenhum modo. Mas tudo estava tão longe que não tínhamos força para um grito. Coragem para uma atitude. Ânimo para uma resposta.

A vida é tão curta que não dá tempo para voltar atrás. Vamos construir outras coisas com esperanças novas. Vamos criar um outro mundo isente ainda de decepções. Nele não crescerão nunca mais alegrias da antiga estirpe. Tudo será diverso. Mas de algum modo será. Só essa coisa é indispensável: ser.

Tudo ficou para longe. E perdido.

Que é que eu tenho contigo, o tempo?

Continuemos.

Ouvi dizer, e recordei, que estivemos sobre as montanhas mais altas, e achamos ainda maiores as dimensões que tínhamos. Que estivemos dias inteiros diante do mar sentindo-o menor que nós, e menos profundo. Que comparamos, com a nossa grandeza, a grandeza de todas as coisas e sempre as deixamos diminuídas. Foi, na verdade, assim.

Também sei que enfrentamos as tempestades sem a mais leve impressão de perigo. Estávamos além de tudo.

Depois, fechei os olhos, como os deuses que se embebem no repouso da própria divindade.

Parece que as coisas em redor mudaram. Não é preciso ter certeza disso.

Não me interessa mais saber que forças têm as tempestades. Que altura têm as montanhas. De que tamanho é o mar. Não tenho nada mais para medir por eles. Estou mais infinita.

Tudo tem seus crepúsculos, seus contrastes, suas mudanças. Tudo que assiste ou reflete a forma variável do mundo. Tudo tem vida e morte, desejo e renúncia. Menos eu.

Ouvi dizer, e recordei, que fomos outros, noutros lugares.

Que é que eu tenho contigo, ó paisagem?

Continuemos.

E as tuas palavras ficaram como o alto mar a alta noite. Indistintas. Alimentadas do silêncio do meu pensamento, que absorveram com inquietude.

Alto mar. Alta noite. Dois desertos sobrepostos. E a minha memória hesitando entre todos dois.

"Posso atirar meu coração nas ondas, como uma rosa.
Posso jogar meu coração para a noite, como uma estrela"

Ai! Pequeno poema impossível. Duas máscaras luminosas sobre uma triste coisa, porque é uma coisa triste e frágil, o meu coração. Natureza de cinza, de areia, de folha seca. Tudo o que se desfaz com um toque brusco. Existência sem existência fora da pura abstração.

Não obstante, às vezes parece-me tão permanente, tão sem morte, tão capaz de resistir, tão certo de vencer, que o sinto enraizado nesse chão de eternidade de onde se sente que brotaram os mundos.

Ora, que importa que seja efêmero ou perpétuo?

O mar está cheio de rosas, e a noite coberta de estrelas. Nem por isso deixam eles de ser uma incerteza sob um mistério. Nem as rosas fixam as águas, nem as estrelas apagam a noite. É assim, para sempre. E é inútil, dentro desses limites igualmente sombrios, insinuar a mais pura, a mais leve, a mais tênue tentativa de liberdade.

E as tus palavras ficaram, assim, diante de mim, estendidas. Olho-as sem nenhuma intenção.

Que é que eu tenho contigo, ó criatura?

Continuemos.

Bem. Hoje, então, escreveremos aqui o nosso nome, rapidamente, e continuaremos.

O nosso nome? Não. Não vale a pena escrever uma coisa tão instantânea. Poderia suceder olharmos para trás, amanhã, e perguntarmos, como no princípio: "Que inscrição deixaram ali?" E diriam: "Mas és tu mesma, não vês? É o sinal da tua passagem!" E nós ficaríamos tão tristes, olhando, como um louco escutando uma canção. Exatamente como no princípio, estás vendo?

E poderia também suceder de uma outra forma. Não é preciso dizer. Para que estar falando de coisas que não acontecerão?

Eu e tu são duas palavras sem sentido. Usam-se por acaso, como um traje vestido às pressas para a travessia de um perigo. Depois, despem-se, perdem-se, esquecem-se. Resta, acaso, alguma coisa?

Mas escuta: o luar está sobre mim, todo aberto como uma árvore branca. Esta noite cantarei, para me ouvires - com lágrimas novas, que nunca sentistes, os teus olhos se encherão longamente de amor.

Se alguém passar por nós pensará que estamos bem perto um do outro, mais perto que o pequeno caminho entre o meu lábio que canta e o teu coração que escuta. No entanto, nós dois sabemos que é mentira. Sbemos que estamos como os dois pólos da terra.

Foi somente um pouco de música no meio do caminho.

Amanhã não estarás diante de mim.

Continuemos.

(Que é que tenho comigo, ó Eu?)

domingo, 8 de março de 2009

Entrevista com Fabrício Carpinejar

Trechos de uma Entrevista dada a Revista Literatura, pelo escritor gaúcho Fabrício Carpinejar:

CP Literatura - Talvez, a única pergunta que importa, e uma das mais difíceis de responder seja: o que te faz escrever?
Fabrício - Realmente, é a pergunta mais atormentada. É uma urgência. O que me faz escrever é a incapacidade, a incompetência para fazer outra coisa. A literatura é um circo, essa possibilidade de completar as falhas, de ter uma honestidade e uma autocrítica muito mais contundente. Por que eu escrevo, então? Porque eu não consigo me enterrar o suficiente.

CP Literatura - E o inverso? O que te faz não escrever?
Fabrício - A sua vida quando está muito perfeita. A alegria é meio burra, por mais que eu tenha tentado alfabetizar a alegria, principalmente na poesia. Parece que você precisa ser trágico, fodido, ferrado, acabado, para escrever alguma coisa. Eu não escrevo na hora que a vida não precisa de meditação. O escritor precisa entender que, em alguns momentos, ele mais escreve quando não escreve. A literatura tem que ter um minuto de silêncio. Não adianta somente escrever para ocupar, você escreve para desocupar, para dar espaço. Também não pense que vai ser gênio, porque não conseguirá escrever nada que preste.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Morire

"Morire non é basta!" E o coronel, naquele tempo tenente, pensara: "Mas que raio ainda querem que façamos?"

Hemingway - Do Outro lado do Rio, Entre as Árvores

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Nietzschiana - Manuel Bandeira

- Meu pai, ah que me esmaga a sensação do nada!
- Já sei, minha filha... é atavismo.

E ela reluzia com as mil cintilações do Êxito intacto.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Quadro - Paulo Mendes Campos

Fique na flor o perfume
Fique no mar o infinito
Fiquei no amante o ciúme
No silêncio fique o grito
Fique nos lábios um beijo
Fique Londres na Inglaterra
Fique no beijo o desejo
Fique eu triste cá na terra
Fique o morto em outro mundo
Fique no bosque o gigante
Fique o Y de Raymundo

Fique o peixe em água pura
Fique o pássaro na rama
Ficas bem na minha cama
Como o quadro na moldura.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Bukowiski, Sem Meias

trecho:

(...)"rumo a mim mesmo, à minha casa, a alguma coisa. o velho calhambeque ainda dava no couro, eu também, com toda a rua pela frente. o sinal fechou, achei metade de um charuto no cinzeiro, acendi, queimei de leve o nariz, o sinal abriu, traguei, expeli a fumaça azulada, pra que perder as esperanças? sempre surgiam novas oportunidades, mesmo frustrado e voltando pro mesmo lugar.

estranho: volta e meia deixar de foder é melhor que foder.
apesar de que posso estar enganado. em geral dizem que estou."

Bukowiski, Fabulário geral do delírio cotidiano, Sem Meias

quarta-feira, 23 de julho de 2008

O Avesso e o Direito, Camus



Albert Camus (Mondovi, 7 de novembro de 1913 — Villeblevin, 4 de janeiro de 1960) nasceu na Argélia, foi escritor e filósofo e escreveu o Avesso e o Direito quando tinha 22 anos.

O Avesso e Direito é um livro pequeno, tem só 109 páginas, contando com 20 páginas só de prefácio. Mas é lindo, incrível ver como o Camus pode ter escrito esse livro com só 22 anos. Na verdade, particularmente, acho que os jovens tem muito a dizer, só não são escutados. Esse livro contém 5 peças que para ele são 'ensaios literários', ele fala sobre a solidão, sobre a ausência de Deus, sobre o amor, sobre a morte, sobre o absurdo da condição humana, tudo de uma maneira poética, que quem já leu Camus, sabe como é. É lindo, e no mais, não custa nada, são poucas páginas.

Vai aí um dos trechos que eu mais gostei:

"Isso tudo não se concilia? Bela verdade. Uma mulher que se abandona para ir ao cinema, um velho que não é mais ouvido, uma morte que nada resgata, e então, do outro lado, toda luz do mundo. Que diferença faz isso, se tudo se aceita? Trata-se de três destinos semelhantes e, contudo, diferentes. A morte para todos, mas a cada um a sua morte. Afinal, o sol nos aquece os ossos, apesar de tudo."

(Albert Camus, O Avesso e O Direito, pg 54, 55)