mergulhem-se

domingo, 8 de março de 2009

Entrevista com Fabrício Carpinejar

Trechos de uma Entrevista dada a Revista Literatura, pelo escritor gaúcho Fabrício Carpinejar:

CP Literatura - Talvez, a única pergunta que importa, e uma das mais difíceis de responder seja: o que te faz escrever?
Fabrício - Realmente, é a pergunta mais atormentada. É uma urgência. O que me faz escrever é a incapacidade, a incompetência para fazer outra coisa. A literatura é um circo, essa possibilidade de completar as falhas, de ter uma honestidade e uma autocrítica muito mais contundente. Por que eu escrevo, então? Porque eu não consigo me enterrar o suficiente.

CP Literatura - E o inverso? O que te faz não escrever?
Fabrício - A sua vida quando está muito perfeita. A alegria é meio burra, por mais que eu tenha tentado alfabetizar a alegria, principalmente na poesia. Parece que você precisa ser trágico, fodido, ferrado, acabado, para escrever alguma coisa. Eu não escrevo na hora que a vida não precisa de meditação. O escritor precisa entender que, em alguns momentos, ele mais escreve quando não escreve. A literatura tem que ter um minuto de silêncio. Não adianta somente escrever para ocupar, você escreve para desocupar, para dar espaço. Também não pense que vai ser gênio, porque não conseguirá escrever nada que preste.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Morire

"Morire non é basta!" E o coronel, naquele tempo tenente, pensara: "Mas que raio ainda querem que façamos?"

Hemingway - Do Outro lado do Rio, Entre as Árvores

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Nietzschiana - Manuel Bandeira

- Meu pai, ah que me esmaga a sensação do nada!
- Já sei, minha filha... é atavismo.

E ela reluzia com as mil cintilações do Êxito intacto.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Quadro - Paulo Mendes Campos

Fique na flor o perfume
Fique no mar o infinito
Fiquei no amante o ciúme
No silêncio fique o grito
Fique nos lábios um beijo
Fique Londres na Inglaterra
Fique no beijo o desejo
Fique eu triste cá na terra
Fique o morto em outro mundo
Fique no bosque o gigante
Fique o Y de Raymundo

Fique o peixe em água pura
Fique o pássaro na rama
Ficas bem na minha cama
Como o quadro na moldura.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Bukowiski, Sem Meias

trecho:

(...)"rumo a mim mesmo, à minha casa, a alguma coisa. o velho calhambeque ainda dava no couro, eu também, com toda a rua pela frente. o sinal fechou, achei metade de um charuto no cinzeiro, acendi, queimei de leve o nariz, o sinal abriu, traguei, expeli a fumaça azulada, pra que perder as esperanças? sempre surgiam novas oportunidades, mesmo frustrado e voltando pro mesmo lugar.

estranho: volta e meia deixar de foder é melhor que foder.
apesar de que posso estar enganado. em geral dizem que estou."

Bukowiski, Fabulário geral do delírio cotidiano, Sem Meias

quarta-feira, 23 de julho de 2008

O Avesso e o Direito, Camus



Albert Camus (Mondovi, 7 de novembro de 1913 — Villeblevin, 4 de janeiro de 1960) nasceu na Argélia, foi escritor e filósofo e escreveu o Avesso e o Direito quando tinha 22 anos.

O Avesso e Direito é um livro pequeno, tem só 109 páginas, contando com 20 páginas só de prefácio. Mas é lindo, incrível ver como o Camus pode ter escrito esse livro com só 22 anos. Na verdade, particularmente, acho que os jovens tem muito a dizer, só não são escutados. Esse livro contém 5 peças que para ele são 'ensaios literários', ele fala sobre a solidão, sobre a ausência de Deus, sobre o amor, sobre a morte, sobre o absurdo da condição humana, tudo de uma maneira poética, que quem já leu Camus, sabe como é. É lindo, e no mais, não custa nada, são poucas páginas.

Vai aí um dos trechos que eu mais gostei:

"Isso tudo não se concilia? Bela verdade. Uma mulher que se abandona para ir ao cinema, um velho que não é mais ouvido, uma morte que nada resgata, e então, do outro lado, toda luz do mundo. Que diferença faz isso, se tudo se aceita? Trata-se de três destinos semelhantes e, contudo, diferentes. A morte para todos, mas a cada um a sua morte. Afinal, o sol nos aquece os ossos, apesar de tudo."

(Albert Camus, O Avesso e O Direito, pg 54, 55)

segunda-feira, 9 de junho de 2008

A Função da Arte - Eduardo Galeano














Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: - Me ajuda a olhar!

(Eduardo Galeano, em Livro dos Abraços)

quinta-feira, 29 de maio de 2008

A Tartaruga - Rubem Braga

Moradores de Copacabana, comprai vossos peixes na peixaria Bolívar, Rua Bolívar 70, de propriedade do Sr. Francisco Mandarino, porque eis que ele é um homem de bem. O caso foi que lhe mandaram uma tartaruga de cerca de 150 kg, dois metros e (dizem) 200 anos, a qual ele expôs em sua peixaria durante 3 dias e não a quis vender; a levou até a praia, e a soltou no mar. Havia um poeta dormindo dentro do comerciante, e ele reverenciou a vida e a liberdade na imagem de uma tartaruga.

Nunca Mateis a Tartaruga.

Uma vez, na casa de meu pai, nós matamos uma tartaruga. Era uma grande, velha tartaruga do mar que um compadre pescador nos mandara para Cachoeiro. Juntam-se homens para matar uma tartaruga e ela resiste horas. Cortam-lhe a cabeça, ela continua a bater as nadadeiras. Arrancam-lhe o coração, ele continua a pulsar. A vida está entranhada nos seus tecidos com uma teimosia que inspira respeito e medo. Um pedaço de carne cortado, jogado ao chão, treme sozinho de súbito. Sua agonia é horrível e insistente como um pesadelo.De repente os homens param e se entreolham com o vago sentimento de estar cometendo um crime.


Moradores de Copacabana, comprai vossos peixes na peixaria Bolívar, de Francisco Mandarino, porque nele, em um momento belo de sua vida vulgar, o poeta venceu o comerciante. Porque ele não matou a tartaruga.

Rio, julho, 1959

domingo, 11 de maio de 2008

Palmeiras Selvagens - William Faulkner

É de uma poesia, mais subjetiva do que objetiva, absurda. Leiam.

"William Cuthbert Faulkner (New Albany, 25 de setembro de 1897 — Byhalia, Mississippi, 6 de julho de 1962) é considerado um dos maiores escritores norte-americanos do século XX.Em 1949, foi nomeado Prêmio Nobel de Literatura. Posteriormente, ganhou o o National Book Awards de 1951 com Collected Stories e o prêmio Pulitzer em 1955 por A Fable. Utilizando a técnica de "fluxo de consciência" consagrada por James Joyce, Virginia Woolf, Marcel Proust e Thomas Mann, Faulkner narrou a decadência do sul dos EUA, interiorizando-a em seus personagens, a maioria deles vivendo situações desesperadoras no condado imaginário de Yoknapatawpha. Por muitas vezes descrever múltiplos pontos de vista (não raro, simultaneamente) e impor bruscas mudanças de tempo narrativo, a obra faulkneriana é tida como hermética e desafiadora." (wikipédia)