mergulhem-se

domingo, 7 de abril de 2013

Primeiro assentamento sobre a literatura


Ontem gastei o pouco dinheiro que eu não tinha para comprar mais dois livros, dos treze livros que comprei nesta semana. Pergunto, se de alguma forma tive um acesso, se isso pode ser nomeado, como um acesso de loucura, futilidade – mesmo uma futilidade pseudo culta – num consumismo fúnebre, fetichismo alucinado, envaziamento do livro, leitura líquida, seja lá como se pode dar nome à isso. ?

Não sei. A primeira coisa que posso constar, de certa forma feliz porque vejo neste ato uma progressão – é que sete destes livros são de língua portuguesa; cinco de autores brasileiros; quatro de autores que eu conheço pessoalmente; três da querida Editora Patuá; dois provindos da antiga região denominada austro-hungria; um da região do caribe; e três guias de viagem – sendo dois com enfoque literário, mais um dicionário.

Destes dez, desconsiderando guias e dicionário, sete são de autores vivos. Ou seja, apenas três livros são de autores póstumos e isto porque ambos são falecidos nas últimas décadas.

Por que ressalto estas escolhas?

Porque imagino, em minha ingenuidade, paixão, leiguice tórrida, ou seja lá mais uma vez o que os puristas, cultos e 'ascéticos', preferem chamar, que isto é consideravelmente importante para avaliar o avanço, a qualidade da literatura contemporânea, de língua portuguesa, brasileira, e ainda mais do deslocamento da fonte de cultura da Europa Ocidental para outras regiões mais “vandalizadas” culturalmente, entre aspas, claro.

Embora, o mundo abra cada vez mais espaço para os seus ebooks, ipads e genéricos digitais, acredito, mais do que nunca, na força que a literatura imprime aqui. Com certeza há uma mudança radical na forma com que ela se põe e na forma com que nos relacionamos, não estou querendo impor a velha literatura para um mundo que já se verticaliza acima do que eu mesma posso compreender. Seria burrice. Ignorância da própria ignorância. Nem pretendo travar uma briga entre tecnologia versus cultura. Imagino que elas podem muito bem se imbricar e muito bem se desafiar e também se destruir, isto tudo depende das mãos que as manejam. Não pretendo abordar isto aqui muito mais profundamente, até porque não tenho o trabalho científico, empírico, dos dados, apenas o intuitivo e uma experiência quase ou totalmente lírica do dia-a-dia.

Enfim. Por que tantos livros de língua portuguesa? Como todos, ou a maioria sabe, estou indo viajar para fora do país, e me preocupo no mais com uma saudade ansiosa e alucinada que vou ficar desta língua, que não é só a minha língua fluente, mas a língua que há 24 anos cabe em minha boca e que me assume e assalta as experiências de toda a minha vida. O português é a língua mais bonita que conheci até agora, e conheço poucas – mas esta é a paixão, cega e hirta de um olho só, que já compreende o objeto amado como o maior que existe. Mas quem nasceu no Brasil sabe, mesmo sem ter saído nenhuma vez daqui, que é um dos lugares de habitats mais alucinantes que a Terra conheceu. É desta forma, silenciosa e meio inata, que amo a minha língua. Medo de esquecê-la. Medo de não pô-la na minha boca, esta que é mãe da minha existência.

Por que ressalto que destes quatro livros conheço os autores? Imagino que para mim, e para todos, possa parecer mera adubação, simpatia, cortejo, abrulhamento dos íntimos, mas não. Tenho mais vigor e mais exigência com os íntimos do que com os que estão fora. Com os próximos amo de olhos abertos, virginianamente, atenta aos rasgos, rasuras, manchas, e brotoejas. Estou firme e afiada para as imagens lassas, carcomidas, e inférteis. Não me interessam. Apenas me interessam caso mostrem servir-se de um terreno que deseja ser remexido, infiltrado, desconstruído se for o caso, aí sim, darei tudo de mim, porque acredito que todos aqui podem chegar a lugares inimagináveis por nós mesmos e pelos que nos rodeiam. De qualquer forma, estes quatro autores a que me refiro não precisam de arado, precisam sim de chuva para que continuem movimentando seus barcos no lamaçal de suas poesias. Agradeço, a Editora Patuá, por publicar alguns desses livros. E fico muito satisfeita de poder acompanhar tão de perto esta caminhada – dançante, labirintesca, que seja – nos meus olhos míopes e um pouco infantis – para mim isto é festa, o que fulgura além de si mesmo, não pode ser nada mais do que festa, envolvido de todo o corpo, razão, alma, e mais.... aquilo que não nomeamos. Dança. E a dança não pode ser empedrada, a la chacal, sem seus sapatos, até o fim da vida.






Julia Mendes, 6/4/2013

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

XIX (cantares), Hilda Hilst

Corpo de carne
Sobre um corpo de água.
Sonha-me a mim
Contigo debruçada
Sobre este corpo de rio.
Guarda-me
Solidão e nome

E vive o percurso
Do que corre
Jamais chegando ao fim.

Guarda esta tarde
E repõe sobre as águas
Teus navios. Pensa-me
Imensa, iluminada
Grande corpo de água
Grande rio
Esquecido de chagas e afogados.

Pensa-me rio.
Lavado e aquecido da tua carne.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Sobre os poetas...

"A posição social e a condição do poeta - uso a palavra tanto no sentido amplo como no rigoroso - revelam indiscutivelmente o verdadeiro nível de vitalidade de um povo. A China, o Japão, a Índia, a África - a África primitiva - são lugares em que a poesia ainda é fundamental. O que faz evidentemente falta entre nós, de que nem sequer desconfiamos que carecemos, é o sonhador, o louco inspirado. Com que prazer macabro, na hora de lhe cavarmos a sepultura, focalizamos a atenção no "desajuste" do indivíduo solitário, o único rebelde autêntico de uma sociedade decadente! E no entanto são justamente essas figuras que dão sentido à expressão cediça: "desajuste". "



Henry Miller no prefácio de "A hora dos assassinos"

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

sobre a felicidade...

"Eu gostaria de saber se com outras pessoas o cérebro é responsável pela razão e pela felicidade. Comigo o cérebro consegue formar apenas uma pequena felicidade. Para formar uma vida, não basta. Pelo menos não para formar a minha vida."

(...)

"Há muito que dizer sobre a vida, mas essencialmente nada sobre a felicidade, porque assim que a gente abre a boca ela some. Nem mesmo a felicidade perdida suporta ser falada."




Herta Müller em "O Compromisso"

sábado, 29 de setembro de 2012

Convite de Lançamento

Convido a todos para o lançamento do meu livro de poesias "para um corpo preso no guindaste"que será feito dia 9/10 em São Paulo.



terça-feira, 21 de agosto de 2012

Poema XIV, Roberto Piva

vou moer teu cérebro. vou retalhar tuas
                      coxas imberbes & brancas.
           vou dilapidar a riqueza de tua
                      adolescência. vou queimar teus
                      olhos com ferro em brasa.
                vou incinerar teu coração de carne &
                                 de tuas cinzas vou fabricar a
                                 substância enlouquecida das
                                           cartas de amor.





de "20 Poemas com brócoli", Roberto Piva

segunda-feira, 25 de junho de 2012

O raio sobre o lápis, Maria Gabriela Llansol, poema...

V

a conclusão de que não há abismo, e que a infância não
pára de desenvolver-se e crescer,
é um novo princípio de realidade, de morte, de velhice:
eu não deixo de viver no mundo interior e exterior das
metamorfoses flutuantes; é já dia, mas a noite que con-
duz a esperança no pensamento, e sobre si própria, não
acabou.
Não acabou definitivamente;
onde estará, protegendo-se da luz, o sapo que brilha?
Eu tenho a intuição, Aramis, de que os monstros
são as tentativas mais puras do Universo.
«Olha-os, e não os mates.»

sábado, 16 de junho de 2012

Do Desejo, Hilda Hilst

egon schiele


III

Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

"Ferida", Paulo Leminski, poema

         essa a vida que eu quero,
querida

         encostar na minha
a tua ferida





do livro La Vie en Close, P. Leminski

segunda-feira, 7 de maio de 2012

O exílio do Imaginário, Roland Barthes

1. Tomo Werther nesse momento fictício (na própria ficção) em que ele teria renunciado a se suicidar. Só lhe resta então o exílio: não seria se afastar de Charlotte (ele já o fizera uma vez sem resultado), mas se exilar da sua imagem, ou pior ainda: interromper essaenergia delirante que se chama Imaginário. Começa então "uma espécie de longa isônia". Esse é o preço a pagar: a morte da imagem contra minha própria vida.


(A paixão amorosa é um delírio; mas o delírio não é estranho; todo mundo fala dele, ele fica então domesticado. O que é enigmático é a perda de delírio: se entra em quê?)


2. “No luto real, é a “prova de realidade” que me mostra que o objeto amado não existe mais. No luto amoroso o objeto não está morto, nem distante. Sou eu quem decido que a sua imagem deve morrer (e ele talvez nem saberá disso). Durante todo o tempo de duração desse estranho luto, terei que suportar duas infelicidades contrárias: sofrer com a presença do outro (continuando a me ferir à sua revelia) e ficar triste com a sua morte (pelo menos tal como eu o amava). Assim me angustio (velho hábito) por causa de um telefone que não toca, mas ao mesmo tempo devo me dizer que esse silêncio é de qualquer jeito inconseqüente, porque decidi elaborar o luto dessa preocupação: é a imagem amorosa que deve me telefonar; desaparecida essa imagem, o telefone, toque ou não, retoma sua existência fútil.


(O ponto mais sensível desse luto não será que devo perder uma linguagem - a linguagem amorosa? Acabaram os "Eu te amo".)

3. Quanto mais eu fracasso no luto da imagem, mais fico angustiado; mas, quanto mais eu consigo, mais me entristeço. Se o exílio do Imaginário é o caminho necessário para a “cura”, convenhamos que o progresso é triste. Essa tristeza não é uma melancolia, pois não me acuso de nada e não fico prostrado. Minha tristeza pertence a essa faixa de melancolia onde a perda do ser amado fica abstrata. Falta redobrada: não posso nem mesmo investir minha infelicidade, como no tempo em que eu sofria por estar apaixonado. Nesse tempo, eu desejava, eu sonhava, eu lutava; diante de mim havia um bem, apenas retardado, atravessado por contratempos. Agora, não há mais repercussão; tudo está calmo e é pior. Embora justificado por uma economia - a imagem morre para que eu viva – o luto amoroso tem sempre um resto: uma palavra volta sem parar: Que pena!”
 
 
4. Prova de amor: te sacrifico meu Imaginário — como se dedicava o corte de uma cabeleira. Assim talvez (pelo menos é o que dizem) terei acesso ao "verdadeiro amor". Se há alguma semelhança entre a crise amorosa e a cura analítica, elaboro então o luto de quem eu amo, como o paciente elabora o luto do seu analista: liquido minha transferência, e parece que, assim, a cura e a crise terminam.Entretanto, como já foi dito, essa teoria esquece que o analista também deve elaborar o luto do seu paciente (sem o que a análise corre o risco de não terminar nunca); do mesmo modo, o ser amado — se eu lhe sacrifico um Imaginário que estava entretanto grudado nele -, o ser amado deve entrar na melancolia de sua própria decadência. É preciso prever e assumir essa melancolia do outro ao mesmo tempo do meu próprio luto, e sofro, pois ainda o amo.
 
O ato verdadeiro do luto não é sofrer a perda do objeto amado; é constatar um dia o aparecimento de uma manchinha na pele da relação, sintoma de morte certa: pela primeira vez faço mal a quem amo, sem querer é claro, mas sem me desesperar.

5. Tento me soltar do Imaginário amoroso: mas o Imaginário queima por baixo, como um fogo mal apagado; cria brasa novamente; ressurge aquilo a que se renunciou; um longo grito irrompe bruscamente do túmulo mal fechado.


(Ciúmes, angústias, posses, discursos, apetites, signos, o desejo amoroso queimava de novo por todo lado. Era como se eu quisesse abraçar pela última vez, até a loucura, alguém que fosse morrer — para quem eu fosse morrer: eu procedia a uma recusa de separação.)


.....

trecho de Fragmentos de um Discurso Amoroso, Roland Barthes





de Egon Schiele