Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca Austera. Toma-me AGORA, ANTES Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes Da morte, amor, da minha morte, toma-me Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute Em cadência minha escura agonia.
Tempo do corpo este tempo, da fome Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento, Um sol de diamante alimentando o ventre, O leite da tua carne, a minha Fugidia. E sobre nós este tempo futuro urdindo Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.
Te descobres vivo sob um jogo novo. Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor, Antes do muro, antes da terra, devo Devo gritar a minha palavra, uma encantada Ilharga Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.
A primeira vez que vi Teresa Achei que ela tinha pernas estúpidas Achei também que a cara parecia uma perna
Quando vi Teresa de novo Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo (Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)
Da terceira vez não vi mais nada Os céus se misturaram com a terra E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.
I am not a painter, I am a poet. Why? I think I would rather be a painter, but I am not. Well,
for instance, Mike Goldberg is starting a painting. I drop in. "Sit down and have a drink" he says. I drink; we drink. I look up. "You have SARDINES in it." "Yes, it needed something there." "Oh." I go and the days go by and I drop in again. The painting is going on, and I go, and the days go by. I drop in. The painting is finished. "Where's SARDINES?" All that's left is just letters, "It was too much," Mike says.
But me? One day I am thinking of a color: orange. I write a line about orange. Pretty soon it is a whole page of words, not lines. Then another page. There should be so much more, not of orange, of words, of how terrible orange is and life. Days go by. It is even in prose, I am a real poet. My poem is finished and I haven't mentioned orange yet. It's twelve poems, I call it ORANGES. And one day in a gallery I see Mike's painting, called SARDINES.
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Por que eu não sou pintor
Eu não sou pintor, sou poeta. Por quê? Eu acho que preferiria ser pintor, mas não sou. Bem,
por exemplo, Mike Goldberg começa um quadro. Eu dou uma passada. "Senta e bebe alguma coisa", ele diz. Eu bebo; nós bebemos. Eu dou uma olhada."Você pôs SARDINHAS neste." "É, precisava de alguma coisa ali." "Ah." Eu vou e os dias vão-se e dou outra passada. O quadro está indo, e eu vou, e os dias vão-se. Dou uma passada. O quadro está pronto. "Cadê SARDINHAS?" Tudo o que sobrou são letras, "Estava exagerado", diz Mike.
E eu? Um dia começo a pensar sobre uma cor: laranja. Eu escrevo um verso sobre laranja. Não demora a tornar-se uma página inteira de palavras, não de versos. Então, mais uma página. Deveria ter tantas coisas mais, não de laranja, de palavras, de como laranja é horrível, e a vida. Dias vão-se. É assim mesmo em prosa, eu sou poeta de verdade. Meu poema está pronto e eu ainda não mencionei laranja. São doze poemas, eu chamo de LARANJAS. E um dia numa galeria eu vejo o quadro de Mike, chamado SARDINHAS.
Stop all the clocks, cut off the telephone, Prevent the dog from barking with a juicy bone, Silence the pianos and with muffled drum Bring out the coffin, let the mourners come.
Let aeroplanes circle moaning overhead Scribbling on the sky the message He Is Dead, Put crêpe bows round the white necks of the public doves, Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West, My working week and my Sunday rest, My noon, my midnight, my talk, my song; I thought that love would last for ever: I was wrong.
The stars are not wanted now: put out every one; Pack up the moon and dismantle the sun; Pour away the ocean and sweep up the wood; For nothing now can ever come to any good.
-----tradução Nelson Ascher------
BLUES FÚNEBRE
Detenham-se os relógios, cale o telefone, jogue-se um osso para o cão não ladrar mais, façam silêncio os pianos e o tambor sancione o féretro que sai com seu cortejo atrás.
Aviões acima, circulando em alvoroço, escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu. Pombas de luto ostentem crepe no pescoço e os guardas ponham luvas negras como breu.
Ele era norte, sul, leste, oeste meus e tanto meus dias úteis quanto o meu fim-de-semana, meu meio-dia, meia-noite, fala e canto. Julguei o amor eterno: quem o faz se engana.
Apaguem as estrelas: já nenhuma presta. Guardem a lua. Arriado, o sol não se levante. Removam cada oceano e varram a floresta. Pois tudo mais acabará mal de hoje em diante.
Minha cabeça estremece com todo o esquecimento. Eu procuro dizer como tudo é outra coisa. Falo, penso. Sonho sobre os tremendos ossos dos pés. É sempre outra coisa, uma só coisa coberta de nomes. E a morte passa de boca em boca com a leve saliva, com o terror que há sempre no fundo informulado de uma vida. Sei que os campos imaginam as suas próprias rosas. As pessoas imaginam os seus próprios campos de rosas. E às vezes estou na frente dos campos como se morresse; outras, como se agora somente eu pudesse acordar.
Por vezes tudo se ilumina. Por vezes sangra e canta. Eu digo que ninguém se perdoa no tempo. Que a loucura tem espinhos como uma garganta. Eu digo: roda ao longe o outono, e o que é o outono? As pálpebras batem contra o grande dia masculino do pensamento.
Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra. Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.
- Era uma casa - como direi? - absoluta.
Eu jogo, eu juro. Era uma casinfância. Sei como era uma casa louca. Eu metia as mãos na água: adormecia, relembrava. Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.
Apalpo agora o girar das brutais, líricas rodas da vida. Há no esquecimento, ou na lembrança total das coisas, uma rosa como uma alta cabeça, um peixe como um movimento rápido e severo. Uma rosapeixe dentro da minha ideia desvairada. Há copos, garfos inebriados dentro de mim. - Porque o amor das coisas no seu tempo futuro é terrivelmente profundo, é suave, devastador.
As cadeiras ardiam nos lugares. Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento como seres pasmados. Às vezes riam alto. Teciam-se em seu escuro terrífico. A menstruação sonhava podre dentro delas, à boca da noite. Cantava muito baixo. Parecia fluir. Rodear as mesas, as penumbras fulminadas. Chovia nas noites terrestres. Eu quero gritar paralém da loucura terrestre. --- Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo. Havia uma essência de oficina. Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras, com as suas maçãs centrípetas e as uvas pendidas sobre a maturidade. Havia a magnólia quente de um gato. Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia que saía da mão para o rosto da mãe sombriamente pura. Ah, mãe louca à volta, sentadamente completa. As mãos tocavam por cima do ardor a carne como um pedaço extasiado.
Era uma casabsoluta - como direi? - um sentimento onde algumas pessoas morreriam. Demência para sorrir elevadamente. Ter amoras, folhas verdes, espinhos com pequena treva por todos os cantos. Nome no espírito como uma rosapeixe.
- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados agora nas palavras. Prefiro cantar nas varandas interiores. Porque havia escadas e mulheres que paravam minadas de inteligência. O corpo sem rosáceas, a linguagem para amar e ruminar. O leite cantante.
Eu agora mergulho e ascendo como um copo. Trago para cima essa imagem de água interna. - Caneta do poema dissolvida no sentido primacial do poema. Ou o poema subindo pela caneta, atravessando seu próprio impulso, poema regressando. Tudo se levanta como um cravo, uma faca levantada. Tudo morre o seu nome noutro nome.
Poema não saindo do poder da loucura. Poema como base inconcreta de criação. Ah, pensar com delicadeza, imaginar com ferocidade. Porque eu sou uma vida com furibunda melancolia, com furibunda concepção. Com alguma ironia furibunda.
Sou uma devastação inteligente. Com malmequeres fabulosos. Ouro por cima. A madrugada ou a noite triste tocadas em trompete. Sou alguma coisa audível, sensível. Um movimento. Cadeira congeminando-se na bacia, feita o sentar-se. Ou flores bebendo a jarra. O silêncio estrutural das flores. E a mesa por baixo. A sonhar.
No Jardim Botânico de Cracóvia deparei-me com uma árvore Asiática com o nome de Metasequoia Chinesa – uma bela árvore com folhas agulha achatadas. Mas porquê metasequóia – e não apenas uma sequóia normal?
A metasequóia cresce além de si mesma? Será que se eleva acima das outras árvores? Até mesmo as plantas começaram a recorrer ao misterioso jargão de certos sábios académicos?
você pegou minhas mãos como quem corta folhas. como quem pinta quadros na terra. você pegou minhas mãos e as transformou em buquês. você olhou minha veias e disse que eu devia ser escultura. você olhou minhas mãos pequenas e achou que elas eram grandes. você me olhou e não viu nada. nada do que eu era, mas viu muita coisa. você viu mãos grandes e quando você descobriu que elas eram pequenas você foi embora. então eu peguei minhas mãos pequenas e montei um buquê. então eu peguei minhas mãos pequenas e fiz um poema. então eu peguei minhas mãos pequenas e cometi uma bobagem. então minhas mãos me pareceram grandes, e eu percebi que ter mãos era tentar entender talvez o por que de algumas mãos serem grandes, e outras pequenas.
Mi risa no sabe de peces de colores. siempre han sido grises sus pocos peces, rigurosamentes grises. Jamás han desplegado lienzo de oreja a oreja mi torpe risa; apenas un estirar de hocico leporino en mitad de un sueño, apenas un rictus de ángel idiota cuando río solo; apenas - nadie se mueve a engaños - la mueca de la Tragedia vueltas patas arribas en mis retratos. Menos todavía sabe de carcajadas mi enferma risa, de esas que al estallar hacen aletear el alma en torno a la cara. las suyas_ de estallar alguna vez-, sonarían como de una boca llena de piezas de oro o insondable de peledas encías: tal y cual deben resonar en los sótanos del cielo de las vésanicas carcajadas de dios riéndose de si mismo.
- -- - traduzindo
Apontamentos de um riso triste
Meu riso não conhece peixes coloridos. Seus poucos peixes sempre foram cinzas, rigorosamente cinzas. Jamais exibiu um lenço de orelha à orelha meu riso torpe; apenas um estirar de focinho leporino na metade de um sonho, apenas um ricto de anjo idiota quando rio sozinho; apenas - ninguém se move por enganos - a careta da Tragédia envolta com as patas em cima dos meus retratos. Muito menos gargalhas conhece o meu riso enfermo, dessas que ao explodir fazem vibrar a alma ao redor da cara. As suas - explodindo alguma vez - soariam como de uma boca cheia de peças de ouro ou insondável de gengivas nuas: tal qual devem ressoar nos sótãos do céu as gargalhadas insanas de deus rindo de si mesmo.
(do livro de contos "Donde mueren los valientes", Hernán Rivera Letelier, ed. punto de lectura)
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say, stay in there, I'm not going
to let anybody see
you.
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pur whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he's
in there.
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody's asleep.
I say, I know that you're there,
so don't be
sad.
then I put him back,
but he's singing a little
in there, I haven't quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it's nice enough to
make a man
weep, but I don't
weep, do
you?