mergulhem-se

sábado, 5 de março de 2011

E...

Não sei se eu preciso colocar tudo o que leio aqui. Apesar desse blog se parecer muito com esta espécie de "autobiografia da leitura". Algumas coisas eu não ponho. (Muito também por não saber o que dizer, embora na maioria eu acabe dizendo mesmo assim). Mas seria bom que vocês lessem mais Hemingway que eu andei relendo e percebi mais uma vez como é fundamental. E o "E os hipopótamos foram cozidos em seus tanques", escrito pelo Jack Kerouac junto com o William S. Burroughs, a partir de uma história que eles acompanharam de um assassinato de um amigo em comum. Bom.

Até.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O Mar, John Banville, Romance..

Banville escreve com clareza, embora o conteúdo pareça sempre uma espécie de mormaço. E embora a escrita se alterne no tempo e espaço, é fácil de captar, nada se parece com Faulkner neste ponto (que aí sim, é um verdadeiro sargaço). Talvez seja a melancolia do livro que me faça sentir isso - este mormaço, talvez marasmo. Achei estranho no começo, simples demais, infantil e chato, depois fui absorvendo melhor (muitas vezes a chatice vem de mim, é claro). Mas não é nada mecânico - como se poderia dizer de Ian McEwan, que ninguém me ouça.

Alors, a história inicia quando Max Modern, retorna à praia de sua infância logo após ficar viúvo. A narrativa se alterna com este presente; as lembranças de criança e de uma família que costumava passar as férias ali; e toda a fase durante a doença de sua mulher. Gosto quando ele vai se aproximando da morte, incrível, porque parece que é quando o texto é mais genuíno, de resto, às vezes - contraditóriamente - parece sem vida. A última parte do livro é muito bonita e muito bem escrita, como quem escreve do estômago - é o que sinto falta no primeiro terço. A própria relação dele com a morte e com a indiferença... e eminentemente com a vida e o que poderia ter sido feito ou o que poderá ser feito, aún, dela. A enfim relação com o mar que é apontada nas últimas páginas, lindo. Isso tudo é o mais valioso do livro. As lembranças da infância ficam insossas perto da relação descrita com a sua mulher, depois ganham mais tônus. Eu não sei, realmente. É bonito. Tem partes bonitas, apesar de outras monotonias, e acho que algumas frases justificam a existência de um livro - ocorreu para mim com este. Mas demora.


‎"Ela está alojada em mim como uma faca e, mesmo assim, estou começando a esquecê-la" o personagem Max Morden sobre a mulher, Anna.


O Mar
John Banville
Ed. Nova Fronteira
222 páginas



John Banville (1945) é um escritor irlandês.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Canção, Allen Ginsberg, poema..






















O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação

o peso
o peso que carregamos
é o amor.

Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano -

sai para fora do coração
ardendo de pureza -

pois o fardo da vida
é o amor,

mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.

Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor -
quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
- não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contigo
quando negado:

o peso é demasiado
- deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.

Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro
da carne,
a pele treme
na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho -

sim, sim,
é isso que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar
ao corpo
em que nasci.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Assim vivemos agora, Susan Sontag, Novela..

(Susan Sontag)






















"Assim vivemos agora" parece escrito em uma só sentada, inspiração, expiração e fim. Pequeno e quase sem pausas. Parágrafos contínuos. Inúmeros personagens comentam sobre o amigo que está na cama de um hospital depois de contrair e se manifestar o HIV. A voz do paciente nunca aparece a não ser parafraseado por outras vozes, "disseram que ele disse", e nesse diz-que-diz se passam todas as conversas, entre vírgulas infindáveis, parece que vamos perder o ar e o livro acaba.

Como lidar com a gradual morte de um amigo, de uma doença que não se sabe quase nada e a expectativa de que a partir de agora pode ser qualquer um de nós. É para ler de uma só vez, do jeito como foi escrito. Às vozes ficam tão próximas nessa espécie de transe lingüístico que parecem pessoas cochichando ao seu lado e você não consegue distinguir exatamente quem está falando. É muito bonito. Doído. Um dos primeiros registros ficcionais sobre a AIDS.


"Ele disse para Tanya (segundo Greg), quer dizer, se realmente estou doente, o que eu ganho se for ao médico?" p.11

"Bem, todo mundo está preocupado com todo mundo agora, disse Betsy, parece ser assim que vivemos, assim que vivemos agora." p.19

"ele pensava sobre isso, o fim da farra, o fim da loucura, o fim da vida confiante, o fim de ver a vida como uma coisa garantida e de tratar a vida como algo que, feito um samurai, se considerasse disposto a jogar fora de coração leve, despudoradamente;" p.42

"E ele disse certa manhã para Quentin, o medo me rasga, me abre; e para Ira, ele me aperta, me espreme em direção a mim mesmo. O medo tinge, euforiza todas as coisas." p.47/48


Assim Vivemos Agora
Susan Sontag
Tradução de Caio Fernando Abreu
Ed. Cia das Letras
56 páginas

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

"Baila..." - Isabel Escudero, poema

Baila, niña, baila,
y que se vea el caos
bajo tus faldas.



(enviado porAninha Terra)

sábado, 5 de fevereiro de 2011

" o melhor dos piores...." - Hélio Póvoas Júnior, poesia

o melhor dos piores versos:
terem sido bem engajados
em legítimos recuos (recusas), justas causas

o pior dos melhores poemas:
terem sido bem-nascidos
de amores espúrios (escusos), paixões coibidas



(do livro "PURALIRA", Hélio Póvoas Júnior, Coleção Itiquira Thesaurus)

domingo, 30 de janeiro de 2011

"Amar você é coisa de minutos...", Paulo Leminski, poema

Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui

domingo, 23 de janeiro de 2011

Reflexos Num Olho Dourado - Carson Mccullers, Romance

Sensação de uma espuma que não vai de lugar pra lugar nenhum. E daqui a pouco se dissipa. Sombra branca do oceano. Estranho. Parece um lugar intacto do corpo. Como tentar alcançar o meio das costas com os dedos. Coisas para pessoas sem costela ou dançarinos. Aberrações que são tão parecidas com a gente que devemos ser nós aberrantes e não eles, eles-nós. Pequeno romance, diferente de O Coração é um Caçador Solitário que vai por páginas e páginas entrando num mundo tão intimo e tão - espuma - de cada personagem que você parece que até entende - até. Neste a coisa acontece mais rápido, mas sempre dentro de uma jornada meio netuniana. De outra ordem de compreensão. Não é muito lógica mas corresponde em algum lugar por dentro e em certo momento faz um click. Musical. Piano - como a própria Carson era tão ficcionada. Uma das personagens gosta de Bach. Um criado negro tenta aprender francês. Os casais traem uns aos outros numa espécie de acordo tácito - completamente doloroso. Um soldado gosta de andar nu em cima de um cavalo sem sela. Um capitão do exército americano em crise existencial tem uma mistura de atração e ódio por um soldado novo. Mesclas de sensações que não constroem nada... Talvez dê pra pensar que o caminho aqui é mais importante do que a direção para onde se aponta. Maresia. Espuma. Nevoada.

Reflexos num Olho Dourado
Carson McCullers
Ed. José Olympo
144 págs

sábado, 22 de janeiro de 2011

Teoria das Cores - Herberto Helder, conto...

Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe.
O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor — sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.

Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose.

Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.


(do livro "Os Passos em Volta", Herberto Helder, ed. Assírio & Alvim)

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Carta aos Puros - Vinícius de Moraes

Ó vós, homens sem sol, que vos dizeis os Puros
E em cujos olhos queima um lento fogo frio
Vós de nervos de nylon e de músculos duros
Capazes de não rir durante anos a fio.

Ó vós, homens sem sal, em cujos corpos tensos
Corre um sangue incolor, da cor alva dos lírios
Vós que almejais na carne o estigma dos martírios
E desejais ser fuzilados sem o lenço.

Ó vós, homens iluminados a néon
Seres extraordinariamente rarefeitos
Vós que vos bem-amais e vos julgais perfeitos
E vos ciliciais à idéia do que é bom.

Ó vós, a quem os bons amam chamar de os Puros
E vos julgais os portadores da verdade
Quando nada mais sois, à luz da realidade,
Que os súcubos dos sentimentos mais escuros.

Ó vós que só viveis nos vórtices da morte
E vos enclausurais no instinto que vos ceva
Vós que vedes na luz o antônimo da treva
E acreditais que o amor é o túmulo do forte.

Ó vós que pedis pouco à vida que dá muito
E erigis a esperança em bandeira aguerrida
Sem saber que a esperança é um simples dom da vida
E tanto mais porque é um dom público e gratuito.

Ó vós que vos negais à escuridão dos bares
Onde o homem que ama oculta o seu segredo
Vós que viveis a mastigar os maxilares
E temeis a mulher e a noite, e dormis cedo.

Ó vós, os curiais; ó vós, os ressentidos
Que tudo equacionais em termos de conflito
E não sabeis pedir sem ter recurso ao grito
E não sabeis vencer se não houver vencidos.

Ó vós que vos comprais com a esmola feita aos pobres
Que vos dão Deus de graça em troca de alguns restos
E maiusculizais os sentimentos nobres
E gostais de dizer que sois homens honestos.

Ó vós, falsos Catões, chichisbéus de mulheres
Que só articulais para emitir conceitos
E pensais que o credor tem todos os direitos
E o pobre devedor tem todos os deveres.

Ó vós que desprezais a mulher e o poeta
Em nome de vossa vã sabedoria
Vós que tudo comeis mas viveis de dieta
E achais que o bem do alheio é a melhor iguaria.

Ó vós, homens da sigla; ó vós, homens da cifra
Falsos chimangos, calabares, sinecuros
Tende cuidado porque a Esfinge vos decifra...
E eis que é chegada a vez dos verdadeiros puros.