Ó vós, homens sem sol, que vos dizeis os Puros
E em cujos olhos queima um lento fogo frio
Vós de nervos de nylon e de músculos duros
Capazes de não rir durante anos a fio.
Ó vós, homens sem sal, em cujos corpos tensos
Corre um sangue incolor, da cor alva dos lírios
Vós que almejais na carne o estigma dos martírios
E desejais ser fuzilados sem o lenço.
Ó vós, homens iluminados a néon
Seres extraordinariamente rarefeitos
Vós que vos bem-amais e vos julgais perfeitos
E vos ciliciais à idéia do que é bom.
Ó vós, a quem os bons amam chamar de os Puros
E vos julgais os portadores da verdade
Quando nada mais sois, à luz da realidade,
Que os súcubos dos sentimentos mais escuros.
Ó vós que só viveis nos vórtices da morte
E vos enclausurais no instinto que vos ceva
Vós que vedes na luz o antônimo da treva
E acreditais que o amor é o túmulo do forte.
Ó vós que pedis pouco à vida que dá muito
E erigis a esperança em bandeira aguerrida
Sem saber que a esperança é um simples dom da vida
E tanto mais porque é um dom público e gratuito.
Ó vós que vos negais à escuridão dos bares
Onde o homem que ama oculta o seu segredo
Vós que viveis a mastigar os maxilares
E temeis a mulher e a noite, e dormis cedo.
Ó vós, os curiais; ó vós, os ressentidos
Que tudo equacionais em termos de conflito
E não sabeis pedir sem ter recurso ao grito
E não sabeis vencer se não houver vencidos.
Ó vós que vos comprais com a esmola feita aos pobres
Que vos dão Deus de graça em troca de alguns restos
E maiusculizais os sentimentos nobres
E gostais de dizer que sois homens honestos.
Ó vós, falsos Catões, chichisbéus de mulheres
Que só articulais para emitir conceitos
E pensais que o credor tem todos os direitos
E o pobre devedor tem todos os deveres.
Ó vós que desprezais a mulher e o poeta
Em nome de vossa vã sabedoria
Vós que tudo comeis mas viveis de dieta
E achais que o bem do alheio é a melhor iguaria.
Ó vós, homens da sigla; ó vós, homens da cifra
Falsos chimangos, calabares, sinecuros
Tende cuidado porque a Esfinge vos decifra...
E eis que é chegada a vez dos verdadeiros puros.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
domingo, 26 de dezembro de 2010
À Beleza - Miguel Torga
Não tens corpo, nem pátria, nem família,
Não te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.
És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.
És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.
És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.
És a beleza, enfim. És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço...
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço.
Não te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.
És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.
És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.
És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.
És a beleza, enfim. És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço...
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço.
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Eternidade inútil - Cecília Meireles, poema...
Até morrer estarei enamorada
de coisas impossíveis:
tudo que invento, apenas,
e dura menos que eu,
que chega e passa.
Não chorarei minha triste brevidade
unicamente a alheia,
a esperança plantada em tristes dunas,
em vento, em nuvens, n'água.
A pronta decadência,
a fuga súbita
de cada coisa amada.
O amor sozinho vagava.
Sem mais nada além de mim...
numa eternidade inútil.
de coisas impossíveis:
tudo que invento, apenas,
e dura menos que eu,
que chega e passa.
Não chorarei minha triste brevidade
unicamente a alheia,
a esperança plantada em tristes dunas,
em vento, em nuvens, n'água.
A pronta decadência,
a fuga súbita
de cada coisa amada.
O amor sozinho vagava.
Sem mais nada além de mim...
numa eternidade inútil.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Vida e Tempo, Viviane Mosé
acho que a vida anda passando a mão em mim
a vida anda passando a mão em mim
acho que a vida anda passando
a vida anda passando
acho que a vida anda
a vida anda em mim
acho que há vida em mim
a vida em mim anda passando
acho que a vida anda passando a mão em mim
e por falar em sexo quem anda me comendo
é o tempo
na verdade faz tempo mas eu escondia
porque ele me pegava à força e por trás
um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo
se você tem que me comer
que seja com o meu consentimento
e me olhando nos olhos
acho que ganhei o tempo
de lá pra cá ele tem sido bom comigo
dizem que ando até remoçando
a vida anda passando a mão em mim
acho que a vida anda passando
a vida anda passando
acho que a vida anda
a vida anda em mim
acho que há vida em mim
a vida em mim anda passando
acho que a vida anda passando a mão em mim
e por falar em sexo quem anda me comendo
é o tempo
na verdade faz tempo mas eu escondia
porque ele me pegava à força e por trás
um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo
se você tem que me comer
que seja com o meu consentimento
e me olhando nos olhos
acho que ganhei o tempo
de lá pra cá ele tem sido bom comigo
dizem que ando até remoçando
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Pausa para comentário:
Pequena licença para citar o "História social do Jazz" do Hobsbawm. Prefácio do Veríssimo. Para ler com tempo e o ouvido atento. Pesquisa. Cada citação é importante. Escutar todas. Fanatismo mesmo. Escute e escute outra vez. É também literatura, música. Bom. Recomendo o Whisky, mas seria parcial demais. Óbvio talvez, ou tolo. Ainda não acabei de ler. Tavez não acabe nunca. Mas voltarei para cá logo; entre uma página e outra leio uma poesia, quem sabe um romance. Indicações aí na caixa de comentários são bem-vindas. Quero ler tudo que faça bem - que faça mal também, mas estes leio em poucos momentos.
Beijos,
Julia.
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
"IF" - Paulo Mendes Campos
Meu filho, se acaso chegares, como eu cheguei a uma campina de horizontes arqueados, não te intimidem o uivo do lobo, o bramido do tigre; enfrenta-os nas esquinas da selva, olhos nos olhos, dedo firme no gatilho.
Meu filho, se acaso chegares a um mundo injusto e triste como este em que vivo, faze um filho; para que ele alcance um tempo mais longe e mais puro, e ajude a redimi-lo.
Meu filho, se acaso chegares a um mundo injusto e triste como este em que vivo, faze um filho; para que ele alcance um tempo mais longe e mais puro, e ajude a redimi-lo.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Seda - Alessandro Baricco, Romance
Hervé Joncour é um francês comerciante de Seda, devido a uma praga dos bichos-da-seda no Oriente-Médio é obrigado a partir para o Japão para consegui-los através de contrabando - nesta época, meados de 1860, este comércio era proibido.
"[Hervé Joncour] Cruzou a fronteira vizinha a Metz, atravessou o Würtemberg e a Baviera, entrou na Áustria, alcançou de trem Viena e Budapeste, e depois prosseguiu até Kiev. Percorreu a cavalo dois mil quilômetros de estepe russa, passou pelos Urais, entrou na Sibéria, viajou por quarenta dias até alcançar o lado Bakail, que as pessoas do lugar chamavam: o último. Desceu o rio Amur, costeando a fronteira chinesa até o oceano, e, quando chegou ao oceano, deteve-se no porto de Sabirk por dez dias, até que um navio de contrabandistas holandeses o levou ao cabo Teraya, na costa oeste do Japão."
É entre esse pequeno roteiro, de ida e volta, repetido diversas vezes com pequenas variações de palavras, que o romance se embalsa e se repete; funciona quase como uma espécie de refrão que nós identificamos invariavelmente ao longo do texto e ao qual nos pautamos. É como se essa maneira de tecer a partitura da história também fizesse parte do modo com que Joncour percebe o mundo novo e entramos em suas viagens com o mesmo fascínio, estranheza, e uma espécie de inércia que penso ser responsável também pela leveza (quase existencialista?) do livro.
Tenho a impressão que, neste livro, Alessandro Baricco faz o inverso de "Oceano Mar" onde sua escrita é totalmente escorrida, quase onírica, livre, as passagens dissipam uma nas outras sem saber quando termina uma e começa outra. Aqui, o autor escreve com pulso marcado, seco, enxuto e rápido. O incrível é que mesmo assim ele não perde o lirismo, que talvez seja a sua característica mais forte. Como podemos ver nas imagens que Baricco cria através de Joncour, por exemplo, ao definir o "fim do mundo" como o "invísivel", ou ao revelar ideogramas japoneses em papéis de arroz que diz são como "cinzas de uma voz queimada" etc.
Para mim, de tudo o que li, este é um dos autores de nomes mais fortes para o mundo contemporâneo. Devido a sua capacidade de criação e resignificação simbólica e imagética. Reinventar o mundo e dar/manter um lirismo nas coisas que parece quase impossível hoje em dia – se pensarmos na forma com que tornamos tudo facilmente volátil. O deslocamento de figura, compreensão, sensação provocado dentro da gente, aqui, é incessante.
"- O que são?
- Um viveiro.
- Um viveiro?
- Sim.
- E para que serve?
Hervé Joncour mantinha os olhos fixos nos desenhos.
- Você o enche de pássaros, tantos quantos puder, e depois, um dia em que lhe acontece alguma coisa boa, você o escancara, e os vê sair voando." página 74
Seda
Alessandro Baricco
Ed. Cia das Letras
121 páginas
"[Hervé Joncour] Cruzou a fronteira vizinha a Metz, atravessou o Würtemberg e a Baviera, entrou na Áustria, alcançou de trem Viena e Budapeste, e depois prosseguiu até Kiev. Percorreu a cavalo dois mil quilômetros de estepe russa, passou pelos Urais, entrou na Sibéria, viajou por quarenta dias até alcançar o lado Bakail, que as pessoas do lugar chamavam: o último. Desceu o rio Amur, costeando a fronteira chinesa até o oceano, e, quando chegou ao oceano, deteve-se no porto de Sabirk por dez dias, até que um navio de contrabandistas holandeses o levou ao cabo Teraya, na costa oeste do Japão."
É entre esse pequeno roteiro, de ida e volta, repetido diversas vezes com pequenas variações de palavras, que o romance se embalsa e se repete; funciona quase como uma espécie de refrão que nós identificamos invariavelmente ao longo do texto e ao qual nos pautamos. É como se essa maneira de tecer a partitura da história também fizesse parte do modo com que Joncour percebe o mundo novo e entramos em suas viagens com o mesmo fascínio, estranheza, e uma espécie de inércia que penso ser responsável também pela leveza (quase existencialista?) do livro.
Tenho a impressão que, neste livro, Alessandro Baricco faz o inverso de "Oceano Mar" onde sua escrita é totalmente escorrida, quase onírica, livre, as passagens dissipam uma nas outras sem saber quando termina uma e começa outra. Aqui, o autor escreve com pulso marcado, seco, enxuto e rápido. O incrível é que mesmo assim ele não perde o lirismo, que talvez seja a sua característica mais forte. Como podemos ver nas imagens que Baricco cria através de Joncour, por exemplo, ao definir o "fim do mundo" como o "invísivel", ou ao revelar ideogramas japoneses em papéis de arroz que diz são como "cinzas de uma voz queimada" etc.
Para mim, de tudo o que li, este é um dos autores de nomes mais fortes para o mundo contemporâneo. Devido a sua capacidade de criação e resignificação simbólica e imagética. Reinventar o mundo e dar/manter um lirismo nas coisas que parece quase impossível hoje em dia – se pensarmos na forma com que tornamos tudo facilmente volátil. O deslocamento de figura, compreensão, sensação provocado dentro da gente, aqui, é incessante.
"- O que são?
- Um viveiro.
- Um viveiro?
- Sim.
- E para que serve?
Hervé Joncour mantinha os olhos fixos nos desenhos.
- Você o enche de pássaros, tantos quantos puder, e depois, um dia em que lhe acontece alguma coisa boa, você o escancara, e os vê sair voando." página 74
SedaAlessandro Baricco
Ed. Cia das Letras
121 páginas
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Romances
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Tijolo de segurança - Carlos Heitor Cony, Romance
O homem "que pensa em nada, mas profundamente" vive nesta ilha, a Ilha do Governador (Rio de Janeiro) de 1960, enfeitada por Cony, que na verdade mais parece um cenário mítico fora do espaço e do tempo - ou digo isto porque quando penso na ilha que conheço não a reconheço ou a reconheço tão perfeitamente em qualquer lugar do mundo que prefiro deixá-la como recorte atemporal. Cláudio vive nesta ilha, este personagem, que mais parece um retrato de Cony nos seus 30 anos - engraçado porque ele é irônico, descrente, pessimista, e ao mesmo tempo ingênuo, amoroso, amante?.
A ilha vai ao caos com os boatos de um suposto ladrão que ronda de madrugada, um ladrão que nunca rouba, parece andar nu, os mais crentes dizem que é o demônio, outros que é a alma de um pescador, outros que é um tarado, outros que é apenas um bêbado ou um louco, mas os loucos que mal têm? Muitos dizem que o viram, outros acreditam tê-lo visto, vultos, sombras, histórias que transformam o cotidiano da ilha com seus coadjuvantes, o bêbado que dorme ao pé das canoas, o dono do bar, o sogro rabungento, o dono da boate, a mãe velha e pobre do bêbado, os que acreditam em fantasma, os que chamam a polícia. Esse ladrão existe mesmo? E quem seria? Em torno desta tecitura a monotonia angustiada do cotidiano vai se fazendo e se arrastando dentro da ilha.
É incrível como Cony pode ser ácido, irônico e lírico - numa mesma linha. Como se cada frase contivesse todas essas coisas juntas. Tem um olhar muito diferente sobre as coisas, é quase como se a gente pudesse reinventa-las o tempo todo - e faz sentido. Ótimos diálogos. Sentimento exagerado, sempre nos extremos, é com fogo, logo depois é outra coisa. Fica o convite para ler não só este romance, mas a obra toda dele.
"Saudade lúcida é uma droga. Saudade tem muita lucidez, mais angústia que ternura. Não sei por quê, associo Hamlet à lucidez. Até que ponto ele foi lúcido? Quando duvidou do fantasma? Quando acreditou nele? O ladrão daqui da rua será um fantasma igual? Haverá lucidez nesse fantasma? Talvez a lucidez se resuma na consciência da sensação. A morte de Sócrates não foi lúcida nem a de Cristo. Preciso sentir o problema, mas não me acredito lúcido em coisa alguma. No fundo, lucidez deve ser a consciência física do mistério." pag 23
"Cláudio, sozinho, agora no living, descobre que tem medo também. Medo de não sabe bem o quê. Mas não tem ninguém a quem pedir benção. Tenta se abençoar sozinho, mas não é a mesma coisa." pag 44
"'A casa é minha'. Cládio olha para Marcela, triunfal. Ela se diverte agora, sabendo-se derrotada. É quando alguma coisa dentro de Cláduio o adverte para temer a mulher derrotada."
"- Papai?
- Que é?
- Eu não queria que o senhor nunca morresse.
Cláudio se assusta. Depois tenta ficar com o pensamento da filha, mas o susto é mais forte.
- Vou dar um jeito, minha filha."
Tijolo de segurança
Carlos Heitor Cony
Editora Objetiva
212 páginas
A ilha vai ao caos com os boatos de um suposto ladrão que ronda de madrugada, um ladrão que nunca rouba, parece andar nu, os mais crentes dizem que é o demônio, outros que é a alma de um pescador, outros que é um tarado, outros que é apenas um bêbado ou um louco, mas os loucos que mal têm? Muitos dizem que o viram, outros acreditam tê-lo visto, vultos, sombras, histórias que transformam o cotidiano da ilha com seus coadjuvantes, o bêbado que dorme ao pé das canoas, o dono do bar, o sogro rabungento, o dono da boate, a mãe velha e pobre do bêbado, os que acreditam em fantasma, os que chamam a polícia. Esse ladrão existe mesmo? E quem seria? Em torno desta tecitura a monotonia angustiada do cotidiano vai se fazendo e se arrastando dentro da ilha.
É incrível como Cony pode ser ácido, irônico e lírico - numa mesma linha. Como se cada frase contivesse todas essas coisas juntas. Tem um olhar muito diferente sobre as coisas, é quase como se a gente pudesse reinventa-las o tempo todo - e faz sentido. Ótimos diálogos. Sentimento exagerado, sempre nos extremos, é com fogo, logo depois é outra coisa. Fica o convite para ler não só este romance, mas a obra toda dele.
"Saudade lúcida é uma droga. Saudade tem muita lucidez, mais angústia que ternura. Não sei por quê, associo Hamlet à lucidez. Até que ponto ele foi lúcido? Quando duvidou do fantasma? Quando acreditou nele? O ladrão daqui da rua será um fantasma igual? Haverá lucidez nesse fantasma? Talvez a lucidez se resuma na consciência da sensação. A morte de Sócrates não foi lúcida nem a de Cristo. Preciso sentir o problema, mas não me acredito lúcido em coisa alguma. No fundo, lucidez deve ser a consciência física do mistério." pag 23
"Cláudio, sozinho, agora no living, descobre que tem medo também. Medo de não sabe bem o quê. Mas não tem ninguém a quem pedir benção. Tenta se abençoar sozinho, mas não é a mesma coisa." pag 44
"'A casa é minha'. Cládio olha para Marcela, triunfal. Ela se diverte agora, sabendo-se derrotada. É quando alguma coisa dentro de Cláduio o adverte para temer a mulher derrotada."
"- Papai?
- Que é?
- Eu não queria que o senhor nunca morresse.
Cláudio se assusta. Depois tenta ficar com o pensamento da filha, mas o susto é mais forte.
- Vou dar um jeito, minha filha."
Tijolo de segurançaCarlos Heitor Cony
Editora Objetiva
212 páginas
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
A Roupa do Rei, Drummondiana - Francisco Alvim
Estamos gastos sim estamos
gastos
O dia já foi pisado como devia
e de longe nosso coração
piscou na lanterna sangüínea dos automóveis
Agora os corredores nos deságuam
neste grande estuário
em que os sapatos esperam
para humildemente conduzir-nos a nossas casas
Em silêncio conversemos
Que fazer deste ser
sem prumo
despencado do extremo de um dia e
que o sono não recolheu?
Não não indaguemos
Para que indagar matéria de silêncio
Procurar a nenhuma razão que nos explique
e suavemente nos envolva
em suas turvas paredes protetoras
Nada de perguntas
A campânula rompeu-se
O instante nos ofusca
A quem sobra olhos resta ver
um ser nu a vida pouca
Só dentes e sapatos
de volta para casa
Nem um passo à frente
ou atrás
De pés firmes
o corpo oscilante
neste suave embalo da mágoa
descansemos
gastos
O dia já foi pisado como devia
e de longe nosso coração
piscou na lanterna sangüínea dos automóveis
Agora os corredores nos deságuam
neste grande estuário
em que os sapatos esperam
para humildemente conduzir-nos a nossas casas
Em silêncio conversemos
Que fazer deste ser
sem prumo
despencado do extremo de um dia e
que o sono não recolheu?
Não não indaguemos
Para que indagar matéria de silêncio
Procurar a nenhuma razão que nos explique
e suavemente nos envolva
em suas turvas paredes protetoras
Nada de perguntas
A campânula rompeu-se
O instante nos ofusca
A quem sobra olhos resta ver
um ser nu a vida pouca
Só dentes e sapatos
de volta para casa
Nem um passo à frente
ou atrás
De pés firmes
o corpo oscilante
neste suave embalo da mágoa
descansemos
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Cabeceira - Ana Cristina César
Intratável.
Não quero mais pôr poemas no papel
nem dar a conhecer minha ternura.
Faço ar de dura,
muito sóbria e dura,
não pergunto
"da sombra daquele beijo
que farei?"
É inútil
ficar à escuta
ou manobrar a lupa
da adivinhação.
Dito isto
o livro de cabeceira cai no chão.
Tua mão que desliza
distraidamente?
sobre a minha mão
Não quero mais pôr poemas no papel
nem dar a conhecer minha ternura.
Faço ar de dura,
muito sóbria e dura,
não pergunto
"da sombra daquele beijo
que farei?"
É inútil
ficar à escuta
ou manobrar a lupa
da adivinhação.
Dito isto
o livro de cabeceira cai no chão.
Tua mão que desliza
distraidamente?
sobre a minha mão
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