mergulhem-se

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Pausa para comentário:

Pequena licença para citar o "História social do Jazz" do Hobsbawm. Prefácio do Veríssimo. Para ler com tempo e o ouvido atento. Pesquisa. Cada citação é importante. Escutar todas. Fanatismo mesmo. Escute e escute outra vez. É também literatura, música. Bom. Recomendo o Whisky, mas seria parcial demais. Óbvio talvez, ou tolo. Ainda não acabei de ler. Tavez não acabe nunca. Mas voltarei para cá logo; entre uma página e outra leio uma poesia, quem sabe um romance. Indicações aí na caixa de comentários são bem-vindas. Quero ler tudo que faça bem - que faça mal também, mas estes leio em poucos momentos.

Beijos,

Julia.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

"IF" - Paulo Mendes Campos

Meu filho, se acaso chegares, como eu cheguei a uma campina de horizontes arqueados, não te intimidem o uivo do lobo, o bramido do tigre; enfrenta-os nas esquinas da selva, olhos nos olhos, dedo firme no gatilho.

Meu filho, se acaso chegares a um mundo injusto e triste como este em que vivo, faze um filho; para que ele alcance um tempo mais longe e mais puro, e ajude a redimi-lo.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Seda - Alessandro Baricco, Romance

Hervé Joncour é um francês comerciante de Seda, devido a uma praga dos bichos-da-seda no Oriente-Médio é obrigado a partir para o Japão para consegui-los através de contrabando - nesta época, meados de 1860, este comércio era proibido.

"[Hervé Joncour] Cruzou a fronteira vizinha a Metz, atravessou o Würtemberg e a Baviera, entrou na Áustria, alcançou de trem Viena e Budapeste, e depois prosseguiu até Kiev. Percorreu a cavalo dois mil quilômetros de estepe russa, passou pelos Urais, entrou na Sibéria, viajou por quarenta dias até alcançar o lado Bakail, que as pessoas do lugar chamavam: o último. Desceu o rio Amur, costeando a fronteira chinesa até o oceano, e, quando chegou ao oceano, deteve-se no porto de Sabirk por dez dias, até que um navio de contrabandistas holandeses o levou ao cabo Teraya, na costa oeste do Japão."

É entre esse pequeno roteiro, de ida e volta, repetido diversas vezes com pequenas variações de palavras, que o romance se embalsa e se repete; funciona quase como uma espécie de refrão que nós identificamos invariavelmente ao longo do texto e ao qual nos pautamos. É como se essa maneira de tecer a partitura da história também fizesse parte do modo com que Joncour percebe o mundo novo e entramos em suas viagens com o mesmo fascínio, estranheza, e uma espécie de inércia que penso ser responsável também pela leveza (quase existencialista?) do livro.

Tenho a impressão que, neste livro, Alessandro Baricco faz o inverso de "Oceano Mar" onde sua escrita é totalmente escorrida, quase onírica, livre, as passagens dissipam uma nas outras sem saber quando termina uma e começa outra. Aqui, o autor escreve com pulso marcado, seco, enxuto e rápido. O incrível é que mesmo assim ele não perde o lirismo, que talvez seja a sua característica mais forte. Como podemos ver nas imagens que Baricco cria através de Joncour, por exemplo, ao definir o "fim do mundo" como o "invísivel", ou ao revelar ideogramas japoneses em papéis de arroz que diz são como "cinzas de uma voz queimada" etc.

Para mim, de tudo o que li, este é um dos autores de nomes mais fortes para o mundo contemporâneo. Devido a sua capacidade de criação e resignificação simbólica e imagética. Reinventar o mundo e dar/manter um lirismo nas coisas que parece quase impossível hoje em dia – se pensarmos na forma com que tornamos tudo facilmente volátil. O deslocamento de figura, compreensão, sensação provocado dentro da gente, aqui, é incessante.


"- O que são?
- Um viveiro.
- Um viveiro?
- Sim.
- E para que serve?
Hervé Joncour mantinha os olhos fixos nos desenhos.
- Você o enche de pássaros, tantos quantos puder, e depois, um dia em que lhe acontece alguma coisa boa, você o escancara, e os vê sair voando."
página 74


Seda
Alessandro Baricco
Ed. Cia das Letras
121 páginas

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Tijolo de segurança - Carlos Heitor Cony, Romance

O homem "que pensa em nada, mas profundamente" vive nesta ilha, a Ilha do Governador (Rio de Janeiro) de 1960, enfeitada por Cony, que na verdade mais parece um cenário mítico fora do espaço e do tempo - ou digo isto porque quando penso na ilha que conheço não a reconheço ou a reconheço tão perfeitamente em qualquer lugar do mundo que prefiro deixá-la como recorte atemporal. Cláudio vive nesta ilha, este personagem, que mais parece um retrato de Cony nos seus 30 anos - engraçado porque ele é irônico, descrente, pessimista, e ao mesmo tempo ingênuo, amoroso, amante?.

A ilha vai ao caos com os boatos de um suposto ladrão que ronda de madrugada, um ladrão que nunca rouba, parece andar nu, os mais crentes dizem que é o demônio, outros que é a alma de um pescador, outros que é um tarado, outros que é apenas um bêbado ou um louco, mas os loucos que mal têm? Muitos dizem que o viram, outros acreditam tê-lo visto, vultos, sombras, histórias que transformam o cotidiano da ilha com seus coadjuvantes, o bêbado que dorme ao pé das canoas, o dono do bar, o sogro rabungento, o dono da boate, a mãe velha e pobre do bêbado, os que acreditam em fantasma, os que chamam a polícia. Esse ladrão existe mesmo? E quem seria? Em torno desta tecitura a monotonia angustiada do cotidiano vai se fazendo e se arrastando dentro da ilha.

É incrível como Cony pode ser ácido, irônico e lírico - numa mesma linha. Como se cada frase contivesse todas essas coisas juntas. Tem um olhar muito diferente sobre as coisas, é quase como se a gente pudesse reinventa-las o tempo todo - e faz sentido. Ótimos diálogos. Sentimento exagerado, sempre nos extremos, é com fogo, logo depois é outra coisa. Fica o convite para ler não só este romance, mas a obra toda dele.


"Saudade lúcida é uma droga. Saudade tem muita lucidez, mais angústia que ternura. Não sei por quê, associo Hamlet à lucidez. Até que ponto ele foi lúcido? Quando duvidou do fantasma? Quando acreditou nele? O ladrão daqui da rua será um fantasma igual? Haverá lucidez nesse fantasma? Talvez a lucidez se resuma na consciência da sensação. A morte de Sócrates não foi lúcida nem a de Cristo. Preciso sentir o problema, mas não me acredito lúcido em coisa alguma. No fundo, lucidez deve ser a consciência física do mistério." pag 23

"Cláudio, sozinho, agora no living, descobre que tem medo também. Medo de não sabe bem o quê. Mas não tem ninguém a quem pedir benção. Tenta se abençoar sozinho, mas não é a mesma coisa." pag 44

"'A casa é minha'. Cládio olha para Marcela, triunfal. Ela se diverte agora, sabendo-se derrotada. É quando alguma coisa dentro de Cláduio o adverte para temer a mulher derrotada."

"- Papai?
- Que é?
- Eu não queria que o senhor nunca morresse.
Cláudio se assusta. Depois tenta ficar com o pensamento da filha, mas o susto é mais forte.
- Vou dar um jeito, minha filha."



Tijolo de segurança
Carlos Heitor Cony
Editora Objetiva
212 páginas

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A Roupa do Rei, Drummondiana - Francisco Alvim

Estamos gastos sim estamos
gastos
O dia já foi pisado como devia
e de longe nosso coração
piscou na lanterna sangüínea dos automóveis
Agora os corredores nos deságuam
neste grande estuário
em que os sapatos esperam
para humildemente conduzir-nos a nossas casas


Em silêncio conversemos

Que fazer deste ser
sem prumo
despencado do extremo de um dia e
que o sono não recolheu?

Não não indaguemos
Para que indagar matéria de silêncio
Procurar a nenhuma razão que nos explique
e suavemente nos envolva
em suas turvas paredes protetoras


Nada de perguntas
A campânula rompeu-se
O instante nos ofusca

A quem sobra olhos resta ver
um ser nu a vida pouca
Só dentes e sapatos
de volta para casa

Nem um passo à frente
ou atrás
De pés firmes
o corpo oscilante
neste suave embalo da mágoa
descansemos

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Cabeceira - Ana Cristina César

Intratável.
Não quero mais pôr poemas no papel
nem dar a conhecer minha ternura.
Faço ar de dura,
muito sóbria e dura,
não pergunto
"da sombra daquele beijo
que farei?"
É inútil
ficar à escuta
ou manobrar a lupa
da adivinhação.
Dito isto
o livro de cabeceira cai no chão.
Tua mão que desliza
distraidamente?
sobre a minha mão

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Quando já não era mais necessário - Marina Colasanti, Conto

"Beije-me", pedia ela no amor, quantas vezes aos prantos, a boca entreaberta, sentindo a língua inchar entre dentes, de inútil desejo.

E ele, por repulsa secreta sempre profundamente negada, abstinha-se de satisfazer seu pedido, roçando apenas vagamente os lábios no pescoço e o rosto. Nem se perdia em carícias, ou se ocupava em despir-lhe o corpo, logo penetrando, mais seguro no túnel das coxas do que no possível desabrigo da pálida pele possuída.

Com os anos, ela deixou de pedir. Mas não tendo deixado de desejar, decidiu afinal abandoná-lo, e à casa, sem olhar para trás, não lhe fosse demais a visão de tanto sofrimento.

Mão na maçaneta, hesitou porém. Toda a sua vida passada parecia estar naquela sala, chamando-a para um último olhar. E, lentamente, voltou a cabeça.

Sem grito ou suspiro, a começar pelos cabelos, transformou-se numa estátua de sal. Vendo-a tão inofensivamente imóvel, tão lisa, e pura, e branca, delicada como se translúcida, ele jogou-se pela primeira vez a seus pés.

E com excitada devoção, começou a lembê-la.

(extraído de Contos de amor rasgados, Marina Colasanti, Ed. Record)

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Penso linhos e ungüentos - Hilda Hilst

Penso linhos e ungüentos
para o coração machucado de Tempo.
Penso bilhas e pátios
Pela comoção de contemplá-los.
(E de te ver ali
À luz da geometria de teus atos)
Penso-te
Pensando-me em agonia. E não estou.
Estou apenas densa
Recolhendo aroma, passo
O refulgente de ti que me restou.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Conto de Fadas - Robert Desnos

Era uma vez e muitas outras
Um homem que amava uma mulher
Era uma vez e muitas outras
Uma mulher que amava um homem
Era uma vez e muitas outras
Uma mulher e um homem
Que não amavam aquele e aquela que os amava.

Era uma vez somente
Uma só vez talvez
Uma mulher e um homem que se amavam.

domingo, 3 de outubro de 2010

Confissões de Uma Máscara - Yukio Mishima, Romance

Confissões de Uma Máscara conta a infância e juventude de Kochan, garoto que vive no contexto da Segunda Guerra Mundial no Japão.

Mishima lança uma narrativa em primeira pessoa que mergulha numa amálgama de conflitos interiores e contínua busca do personagem pelo seu verdadeiro "eu". O título do livro faz alusão já a este conflito enquanto Kochan às vezes confessa vestir propositalmente a "máscara social" escondendo seus anseios mais íntimos e em outras fica realmente confuso sobre o que faz parte verdadeira de si e o que é imposição de sua própria cabeça. Há uma descoberta intensa da sexualidade e tentativas de adequação do que seria a "normalidade" - termo que Mishima usa várias vezes durante o livro - que se confundem constantemente com os impulsos e fantasias reais de Kochan. Dentro de suas primeiras descobertas está Omi, um colega repetente da escola, por quem Kochan invariavelmente se excita. Os embates dentro de si rodeiam sempre a sua dificuldade de conciliar o amor e desejo sexual e um fetiche constante em relação a morte que o contexto de entreguerra só alimenta e prolifera. A busca intensa para definir o amor ocorre enquanto Kochan se pergunta se seria possível amar desprovido do impulso sexual - como o amor que pensa sentir por Sonoko - ou se esta espécie de amor seria apenas uma farsa imposta por si mesmo?

O Romance é escrito de forma muito poética e às vezes pode parecer até ingênuo pela sinceridade com que os sentimentos e conflitos são revelados. Li alguns artigos que esta história contém muitos dados auto-biográficos de Mishima, desde dados idênticos da infância até a relação com a sua homossexualidade, os fetiches mórbidos e uma paixão por samurais - representantes de um Japão tradicional.


"Visto sob essa luz, meu ciúme - ciúme violento o suficiente para me fazer dizer a mim mesmo que havia renunciado ao meu amor - era ainda mais amor" pág 62

"A auto-ilusão era agora meu último raio de esperança. Uma pessoa que tenha sido seriamente ferida não exige que os curativos de emergência que lhe salvam a vida estejam limpos. Detive meu sangramento com as ataduras da auto-ilusão, com que pelo menos estava familiarizado, e não pensei em nada mais além de correr para o hospital" pág 144

Confissões de Uma Máscara
Yukio Mishima
Circulação do Livro
184 págs

(Esta é uma edição antiga, mas é possível achar uma edição recente da Cia das Letras)



Yukio Mishima é o pseudonimo de Kimitake Hiraoka, um dos escritores mais conhecidos do Japão; se matou - cometendo seppuku, um ritual em que os samurais cortam o próprio ventre para mostrar a pureza de seu carater - após uma tentativa falida de discursar para os soldados do quartel japonês tentando convencê-los de que desistissem da constituição e voltassem às tradições imperiais.