mergulhem-se

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Cabeceira - Ana Cristina César

Intratável.
Não quero mais pôr poemas no papel
nem dar a conhecer minha ternura.
Faço ar de dura,
muito sóbria e dura,
não pergunto
"da sombra daquele beijo
que farei?"
É inútil
ficar à escuta
ou manobrar a lupa
da adivinhação.
Dito isto
o livro de cabeceira cai no chão.
Tua mão que desliza
distraidamente?
sobre a minha mão

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Quando já não era mais necessário - Marina Colasanti, Conto

"Beije-me", pedia ela no amor, quantas vezes aos prantos, a boca entreaberta, sentindo a língua inchar entre dentes, de inútil desejo.

E ele, por repulsa secreta sempre profundamente negada, abstinha-se de satisfazer seu pedido, roçando apenas vagamente os lábios no pescoço e o rosto. Nem se perdia em carícias, ou se ocupava em despir-lhe o corpo, logo penetrando, mais seguro no túnel das coxas do que no possível desabrigo da pálida pele possuída.

Com os anos, ela deixou de pedir. Mas não tendo deixado de desejar, decidiu afinal abandoná-lo, e à casa, sem olhar para trás, não lhe fosse demais a visão de tanto sofrimento.

Mão na maçaneta, hesitou porém. Toda a sua vida passada parecia estar naquela sala, chamando-a para um último olhar. E, lentamente, voltou a cabeça.

Sem grito ou suspiro, a começar pelos cabelos, transformou-se numa estátua de sal. Vendo-a tão inofensivamente imóvel, tão lisa, e pura, e branca, delicada como se translúcida, ele jogou-se pela primeira vez a seus pés.

E com excitada devoção, começou a lembê-la.

(extraído de Contos de amor rasgados, Marina Colasanti, Ed. Record)

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Penso linhos e ungüentos - Hilda Hilst

Penso linhos e ungüentos
para o coração machucado de Tempo.
Penso bilhas e pátios
Pela comoção de contemplá-los.
(E de te ver ali
À luz da geometria de teus atos)
Penso-te
Pensando-me em agonia. E não estou.
Estou apenas densa
Recolhendo aroma, passo
O refulgente de ti que me restou.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Conto de Fadas - Robert Desnos

Era uma vez e muitas outras
Um homem que amava uma mulher
Era uma vez e muitas outras
Uma mulher que amava um homem
Era uma vez e muitas outras
Uma mulher e um homem
Que não amavam aquele e aquela que os amava.

Era uma vez somente
Uma só vez talvez
Uma mulher e um homem que se amavam.

domingo, 3 de outubro de 2010

Confissões de Uma Máscara - Yukio Mishima, Romance

Confissões de Uma Máscara conta a infância e juventude de Kochan, garoto que vive no contexto da Segunda Guerra Mundial no Japão.

Mishima lança uma narrativa em primeira pessoa que mergulha numa amálgama de conflitos interiores e contínua busca do personagem pelo seu verdadeiro "eu". O título do livro faz alusão já a este conflito enquanto Kochan às vezes confessa vestir propositalmente a "máscara social" escondendo seus anseios mais íntimos e em outras fica realmente confuso sobre o que faz parte verdadeira de si e o que é imposição de sua própria cabeça. Há uma descoberta intensa da sexualidade e tentativas de adequação do que seria a "normalidade" - termo que Mishima usa várias vezes durante o livro - que se confundem constantemente com os impulsos e fantasias reais de Kochan. Dentro de suas primeiras descobertas está Omi, um colega repetente da escola, por quem Kochan invariavelmente se excita. Os embates dentro de si rodeiam sempre a sua dificuldade de conciliar o amor e desejo sexual e um fetiche constante em relação a morte que o contexto de entreguerra só alimenta e prolifera. A busca intensa para definir o amor ocorre enquanto Kochan se pergunta se seria possível amar desprovido do impulso sexual - como o amor que pensa sentir por Sonoko - ou se esta espécie de amor seria apenas uma farsa imposta por si mesmo?

O Romance é escrito de forma muito poética e às vezes pode parecer até ingênuo pela sinceridade com que os sentimentos e conflitos são revelados. Li alguns artigos que esta história contém muitos dados auto-biográficos de Mishima, desde dados idênticos da infância até a relação com a sua homossexualidade, os fetiches mórbidos e uma paixão por samurais - representantes de um Japão tradicional.


"Visto sob essa luz, meu ciúme - ciúme violento o suficiente para me fazer dizer a mim mesmo que havia renunciado ao meu amor - era ainda mais amor" pág 62

"A auto-ilusão era agora meu último raio de esperança. Uma pessoa que tenha sido seriamente ferida não exige que os curativos de emergência que lhe salvam a vida estejam limpos. Detive meu sangramento com as ataduras da auto-ilusão, com que pelo menos estava familiarizado, e não pensei em nada mais além de correr para o hospital" pág 144

Confissões de Uma Máscara
Yukio Mishima
Circulação do Livro
184 págs

(Esta é uma edição antiga, mas é possível achar uma edição recente da Cia das Letras)



Yukio Mishima é o pseudonimo de Kimitake Hiraoka, um dos escritores mais conhecidos do Japão; se matou - cometendo seppuku, um ritual em que os samurais cortam o próprio ventre para mostrar a pureza de seu carater - após uma tentativa falida de discursar para os soldados do quartel japonês tentando convencê-los de que desistissem da constituição e voltassem às tradições imperiais.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

11. - Fernando Pessoa

LITANIA

Nós nunca nos realizamos.

Somos dois abismos - um poço fitando o céu.



(Bernardo Soares, do Livro do Desassossego)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Li um dia, não sei onde - Florberla Espanca















Li um dia, não sei onde,
Que em todos os namorados
Uns amam muito, e os outros
Contentam-se em ser amados.

Fico a cismar pensativa
Neste mistério encantado...
Diga prá mim: de nós dois
Quem ama e quem é amado?...





Florbela Espanca (1894 - 1930), foi uma poetisa portuguesa. Suicidou-se aos 36 anos após o diagnóstico de um edema pulmonar.

domingo, 12 de setembro de 2010

Paludes - André Gide

Pequeno romance para ler em uma tarde. A escrita lenta e ao mesmo tempo fluida (longe de algumas chatices do realismo) trás muito mais a sensação do que a significa do que a estrutura de um pensamento filosófico (que de fato há, mesmo que Gide nem o saiba). Parece de fato uma critica/sátira ao mundo simbolista de Paris que Gide frequentava, os grandes encontros entre literatos e intelectuais num retrato também de discussões modorrentas. Dizem que Gide, em sua vida, e em todas as suas obras esteve a procura de uma verdade interior onde pudesse se igualar à si mesmo; Paludes parece um prenúncio desta busca onde questiona a inércia e a falsa felicidade dos homens (que fecham os olhos para a sua infelicidade e não se movem). Em romances posteriores Gide parece se apoderar mais destes questionamentos ao falar sobre o "ato puro".

Paludes é também um exemplo de "reduplicação" na obra artística, já que o personagem-narrador do livro está justamente escrevendo um romance que se chama "Paludes" e ao citá-lo vez ou outra no livro não sabemos à qual dos dois romances (o que estamos lendo x o que o personagem escreve) o autor está se referindo. Uma situação parecida ocorre em "Os Moedeiros Falsos" de Gide em que o personagem também escreve um romance homônimo.

Prefácio de Gide para o livro:

"Antes de explicar meu livro aos outros, espero que outros mo expliquem. Querer explicá-lo primeiro é limitar-lhe desde já o sentido; pois se sabemos o que queríamos dizer, não sabemos se estávamos dizendo apenas isso. Sempre dizemos mais do que ISSO. E o que me interessa acima de tudo é o que eu coloquei nele sem saber, essa parte de inconsciente, que gostaria de chamar a parte de Deus. Um livro é sempre uma colaboração, e o livro vale tanto mais, quanto menor é a parte do escriba e maior a participação de Deus. Esperemos de todos os lados a revelação das coisas; do público, a revelação de nossas obras."


Paludes
André Gide
Ed. Nova Fronteira
125 págs


quarta-feira, 8 de setembro de 2010

E por que haverias de querer... - Hilda Hilst

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas,ásperas,
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.


sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Campo de Sucatas - Paulo Leminski

saudade do futuro que não houve
aquele que ia ser nobre e pobre
como é que tudo aquilo pôde
virar esse presente poder
e esse desespero em lata?

pôde sim pôde como pode
tudo aquilo que a gente sempre deixou poder
tanta surpresa pressentida
morrer presa na garganta ferida
raciocínio que acabou em reza
festa que hoje a gente enterra

pode sim pode sempre como toda coisa nossa
que a gente apenas deixa poder que possa