mergulhem-se

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Senhora dos olhos lindos, dai-me a esmola de um olhar - Mário de Sá-Carneiro, Poesia...

Senhora dos olhos lindos,
Por que é que sois tão cruel?
As pombas não têm fel,
E vós sois pomba, senhora...
Tormentos vários, infindos,
Sem dó, me fazeis sofrer...
Morto, vós me qu'reis ver,
Não é verdade, traidora?
Respondei! Ficais calada!
Neste caso, adivinhei...
Pois muito bem! morrerei...
Morrerei, sem ter pesar!...
Minha vida amargurada
Eu vos vou dar, deusa qu'rida...
Antes porém da partida
Dai-me a esmola de um olhar.



(Sá-Carneiro por Almada Negreiros)



Mário de Sá-Carneiro (1890 - 1916) foi um escritor português, muito amigo de F.Pessoa. Se matou aos 26 anos engolindo 5 frascos de arseniato de estricnina num hotel de Paris.

domingo, 27 de junho de 2010

Dispersão - Mário de Sá-Carneiro, Poesia...

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).

O pobre moço das ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.

A grande ave dourada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-se saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projecto:
Se me olho a um espelho, erro-
Não me acho no que projecto.

Regresso dentro de mim,
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.

Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi...Mas recordo

A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!...)

E sinto que a minha morte -
Minha dispersão total -
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.

Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas...

Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas para se dar...
Ninguém mas quis apertar...
Tristes mãos longas e lindas...

E tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?...Ai de mim!...

Desceu-me n'alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida,
Eu sigo-a mas permaneço...

...........................
...........................

Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba...

...........................
...........................

Paris, Maio de 1913
(Obra Poética Completa, Mário de Sá-Carneiro, Publicações Europa-América)

quinta-feira, 24 de junho de 2010

As Brasas - Sándor Márai, Romance

Estou em um estado de fascinação tal que é pretensioso querer que as palavras me imitem. Sempre tenho o cuidado de escrever sobre um livro logo após terminá-lo para que as minhas impressões saiam da forma mais viva e genuína possível. Embora isso tenha me funcionado bem, muitas vezes não me parece saudável no ponto em que eu não estou preparada para terminar de digeri-lo. Enfim. Que saia o indigesto. Peço desculpas se for passional demais.

Sandor Márai neste texto se apresenta com uma fluidez, elegância e densidade que é quase impossível não entrar na dança - uníssono do romance. É como escutar a voz grossa de Nina Simone, bruta e ao mesmo tempo lisa. Espessa e lisa. Somos tomados pelo texto. Sedimentados pelo texto e fluímos para dentro de si mesmos com carinho - não só, mas delicadamente sempre. Sándor Márai consegue ser profundo sem ser ácido, consegue enfeitiçar-nos sem machucar tanto quanto Clarice e outros; nos situa no tempo e espaço sem ser excessivo como algum escritor desses realistas; profundo sem abusar da nossa capacidade de suportar sentimentos. Ele vai na medida assim como Hermann Hesse tão piedoso com as nossas feridas, mas sem ignorá-las, alcançando-as mansamente.

A história de "As Brasas" se passa em um castelo da Hungria, onde um velho general do império austro-húngaro recebe a visita de um antigo amigo após quarenta e um anos sem vê-lo, desde que este último desaparecera repentinamente sem dar explicações. O motivo de seu desaparecimento? É o que com esse retorno esperamos desvendar. Algo acontecera na véspera deste desaparecimento, um segredo o qual os separaram por quarenta e um anos e que Sándor Márai desnovela através de solilóquios (lindos, diga-se de passagem) feitos pelo anfitrião ao visitante, que acabam por ocupar quase o livro inteiro. Sándor Márai parece saber muito sobre a solidão humana, após tantos anos exilados, anos de espera e é assim que toma a boca do personagem ao relatar os quarenta e um anos que dividem o encontro dos dois amigos. É um romance que fala de paixão, honra, solidão, mas sobretudo amizade - o fio que deve sustentar o homem através da vida, algo que não desvendamos, mas inevitável não encarar.

"Viveram lado a lado desde o primeiro instante, como gêmeos no útero materno. Não precisaram fazer pactos de amizade como costumam fazer os garotos dessa idade, que se lançam com paixão e ostentação a rituais ridículos e solenes, dessa forma inconsciente e grotesca com que o desejo se manifesta entre os homens, quando decidem pela primeira vez arrancar do resto do mundo o corpo e a alma de outra pessoa para possui-la com exclusividade. O sentido do amor e da amizade estava todo ali. A amizade deles era séria e silenciosa como todos os grandes sentimentos destinados a durar uma vida inteira. E como todos os grandes sentimentos, também continha certa dose de pudor e de culpa. Ninguém pode se apropriar impunemente de uma pessoa, subtraindo-a de todas as outras." As Brasas, página 32


As Brasas
Sándor Márai
Cia das Letras
172 páginas








Sándor Márai (11 de abril de 1900 — 22 de fevereiro de 1989), foi um escritor e jornalista húngaro (nascido no atual território da Eslováquia)

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Uma vez - Paul Celan, poesia

Uma vez, estando a Morte repleta de clientes,
tu em mim te abrigaste.

sábado, 19 de junho de 2010

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Sete poemas portugueses (5) - Ferreira Gullar, poesia

Prometi-me possuí-la muito embora
ela me redimisse ou me cegasse.
Busquei-a na catástrofe da aurora,
E na fonte e no muro onde a sua face,
Entre a alucinação e a paz sonora
da água e do musgo, solitária nasce.
Mas sempre que me acerco vai-se embora
como se me temesse ou me odiasse.

Assim persigo-a, lúcido e demente.
Se por detrás da tarde transparente
seus pés deslumbro, logo nos desvãos

das nuvens fogem, luminosos e ágeis!
Vocabulário e corpo - deuses frágeis-
eu colho a ausência que me queima as mãos.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

- Mario de Andrade, Poesia

Esse homem que vai sozinho
Por estas praças, por estas ruas,
Tem consigo um segredo enorme
É um homem.

Essa mulher igual às outras
Por estas ruas, por estas praças,
Traz uma supresa cruel,
É uma mulher.

A mulher encontra o homem,
Fazem ar de riso, e trocam de mão,
A surpresa e o segredo aumentam.
Violentos.

Mas a sombra do insofrido
Guarda o mistério na escuridão.
A morte ronda com sua foice.
Em verdade, é noite.


(M. Andrade, Poesias Completas, ed. Vila Rica)

segunda-feira, 7 de junho de 2010

domingo, 6 de junho de 2010

Na Praia - Ian McEwan, Romance

Este livro de Ian McwEan, lançado em 2007, conta a história de Edward e Florence, passado em Julho de 1962, virgens e recém-casados em sua lua de mel, prestes a passarem sua primeira noite juntos. A tensão do romance está entre as diversas e diferentes espectativas do casal; Edward entusiasmado e sonhador e Florence com uma certa repulsa, ambos sem poder demonstrá-lo.

Eu tenho que tomar cuidado para não falar mal, errôneamente, deste livro. Mas confesso que desde o comecinho eu tive que me esforçar bastante para não abandoná-lo. Pareceu-me por hora estar lendo um livro infanto-juvenil; não pelo tema que embora pareça clichê "Eram jovens, educados e ambos virgens nessa noite, sua noite de núpcias, e viviam num tempo em que conversar sobre as dificuldades sexuais era completamente impossível" (de acordo com o primeiro parágrafo do livro) mas pelo seu desenvolvimento; o tema não é coisa que bloqueie minha vontade de ler, pois acredito muito mais no "como" do que no "o quê" e por isso me mantive firme desde a sinopse até a última palavra. Aliás, considero por vezes um desafio muito maior tratar de temas tão clichês e transformá-los de alguma forma, mas é preciso fazê-lo bem, senão a coisa se torna previsível e chata.

Pois, McEwan não conseguiu me surpreender no "como", e como o tema já me era passado, o livro ficou por isso mesmo. Não sei bem como dizer isso, mas achei-o por vezes "legível" demais, tudo é muito explicado, até didaticamente, o que deixa o livro um pouco entediante, não me é possível advinhar muitas coisas. Claro que também não posso identificá-lo como mal escritor (não poderia mesmo, pois não li nenhuma outra obra sua), ele demonstra dominar muito bem as táticas literárias e é preciso na alternancia entre os pontos de vista de Edward e Florence, radiografando seus pensamentos e motivações internas, contrapostas também com suas atmosferas sociais e a própria da época. Além disso, talvez o maior mérito do livro seja o envolvimento que Mcwean consegue passar através de um clima de tensão crescente (principalmente do meio para o fim), onde o leitor se sente ansioso à medida que o tempo avança para o final inevitável, clímax que com certeza é a melhor parte do livro. Outra coisa interessante é que McEwan escolhe justamente o ano de 1962 para tratar de um tema que logo depois seria "arregaçado" com a Revolução Sexual de 68. Pode ser como se Florence e Edward representassem o último fio daquela postura pudica até então.

Na Praia
Ian McEwan
Ed. Cia das Letras
128 páginas



Ian McEwan (Aldershot, 21 de Junho de 1948), é um escritor britânico da atualidade.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O Fio da navalha - W. Somerset Maugham, Romance












"A noite é escura / E o caminho é tão longe que me leva a loucura / Andando e dançando / No fio da navalha / Eu sou o faquir / Eu sou o palhaço / E um grande canalha" (Estrela da Noite, Jorge Mautner)



Certo. Neste fio de navalha, o qual percorre a vida, há sutilmente dividido de cada lado o dentro e o fora. E eu estou inclinada a achar, como Larry Darrel, personagem central deste livro, que a verdade está mais dentro do que fora. Certo, não cristalizemos a verdade, deixe que ela exista em qualquer lugar: mas entendo, ou melhor, sinto, que a minha verdade - e penso que nenhuma mais poderá me ser tão válida - está dentro, completamente dentro desta minha carcaça (elétrica, por sinal). Talvez seja um pouco utópico sugerir que não somos obrigados a viver da forma com que a repetição geracional nos impele e que esta coisa a qual se define como a rotina padrão mundial é sim coisa que existe para ser rompida; que o casamento, trabalho, filhos, fordismo, comunismo, almoço, bom dia, diplomas, é só mais uma forma de experienciar nossa pequena passagem pela terra e que por não conhecermos outra forma não quer dizer que não exista. Sim, existe (aqui lanço a sugestão, utópica ou não, com o perdão da palavra: foda-se.) Há mais verdade dentro de nós do que fora: Há o que o nosso corpo pulsa. Há "vim ao mundo à passeio". Há "vim vadiar". Há "espontaneidade". Há "prefiro não". Mas não pretendo fazer nenhum tratado, de forma que sinto que estou falando isso mais para mim mesma, numa espécie de auto-convencimento, do que para qualquer outra pessoa. Enfim.

Maugham (que descobri pronunciar-se "môme") neste romance, conta a história de um homem (Larry) que afetado pela Primeira Guerra Mundial, onde participou como aviador; perdido, desiludido, traumatizado ou quem sabe 'libertado', que seja, desestrutura sua visão de mundo e decide ir em busca daquilo que para ele seria alguma espécie de essência pulsional. Para isso renuncia aos estudos acadêmicos, à oportunidades de trabalho, ao seu noivado etc, e inicia uma viagem pela Europa (e mais tarde para outros lugares) com a intensão apenas de "vadiar". Entendo que "vadiar" possa remeter diretamente a alguma espécie de diversão irresponsável, não é bem à isso que Lary se refere, mas o termo casa bem com o "sem ofício e sem emprego", em rumo de não sei o quê, não sei quando e não sei aonde, com a esperança que possa achar algo de si mesmo. Ao redor de Larry, outras personagens se tecem, fazendo uma boa representação dos tipos daquele início de século XX (e que sem esforço podemos atualizar para hoje); desde aqueles que consideram a cultura uma posse exclusiva de uma elite estanque, em que ser culto é uma condição de status social e não por ter conhecimento, passando pelos variados artistas, até aqueles que buscam a autodestruição das drogas, do álcool, da farra de alguma forma insensata. Toda a futilidade e mesquinhez desta época aparece através deste núcleo que em algum instante também tenta convencer Larry à "endireitar-se", sem compreender de ângulo algum suas escolhas.

O livro pode ser visto também como um confronto de um mundo velho contra um mundo novo instável em incessante transformação, com suas infinitas direções. Mundo velho muito bem representado pela figura de "Elliot" que antes brilhava no meio social e termina o livro em seu leito de morte sem ser convidado para uma festa, a qual considerava de suma importância. Tudo isso registrado e narrado por um personagem-escritor, que se diz o próprio Maugham, desde o fim da Primeira Guerra, passando pela crise de 29, até provavelmente o inicio da Segunda Guerra. De minha impressão escrita, c'est ça. O resto são sensações.

"- Pobre Larry - disse ela, rindo baixinho. - O senhor não me vai dizer que ele está aprendendo grego para assaltar um banco.
Também Ri.
- Não vou, não; o que estou tentando dizer-lhe é que há homens que sentem tão intenso desejo de fazer uma determinada coisa que não podem absolutamente deixar de fazê-la. Estão dispostos a sacrificar tudo para satisfazer esse anseio.
- Até mesmo as pessoas que gostam deles?
- Oh! Sim.
- Não acha que isso é puro egoísmo?
- Não sei dizer - respondi sorrindo.
- Que útilidade prática pode ter para Larry o estudo de línguas mortas?
- Algumas pessoas tem um desejo desinteressado de adquirir cultura. Não se pode dizer que seja um desejo ignóbil.
- Mas de que adianta a cultura se a pessoa não pretende utilizá-la?
- Talvez ele pretenda. Talvez só o fato de saber seja uma satisfação, como ao artista basta a satisfação de produzir uma obra de arte. E talvez seja só um passo para coisa mais avançada.
- Se ele tem tanta sede de saber, porque não foi então para o colégio quando voltou da guerra? Era o que o dr. Nelson e mamãe queriam que ele fizesse.
- Falei com Larry sobre isso em Chicago. Um diploma de nada lhe adiantaria. Pareceu-me que ele tinha uma idéia exata do que queria, mas sentia que não ia encontrar satisfação numa universidade. Você sabe, no estudo existe o lobo solitário, da mesma maneira que existe o lobo que se move com a alcateia. Acho que Larry é uma dessas pessoas que não podem tomar outro caminho a não ser o seu próprio." (trecho da conversa entre o narrador-personagem e Isabel, pág 157, 158)



O Fio da Navalha
W. Somerset Maugham
Ed. Globo de Bolso
558 págs



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