mergulhem-se

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Diários de Susan Sontag (cadernos de 1947 à 1963, organizados por David Rieff)

Estou um pouco assustada depois de ler num só fôlego o primeiro volume dos diários de Susan Sontag; o que me pareceu uma maneira um tanto imprópria de fazê-lo. São milhares de anotações; impressões; argumentações sobre pessoas, coisas, filmes, literatos, filósofos, professores, instituições, peças de teatro, cidades etc. etc. Listas sobre muitas coisas, relatos, relações afetivas, citações e mais citações, livros para serem lidos, descobertas... Tudo isso numa intermitência tal (própria dos diários) que não dão tempo de digerir, entranhar-se, envolver-se de forma segura sem que as nossas sinapses saiam rolando soltas e descontroladas procurando algum fio que as ate. Minha cabeça está numa fragmentação tal que é difícil entender qual o sentimento que permaneceu após fechar a última página. O que mais me pareceu incrível é a forma tão intensa que S.S. fala das suas relações afetivas e ao mesmo tempo dentro de uma atmosfera tão intlectual, a energia está sempre na cabeça, sempre mente inquieta, leitora ávida, estudante afobada... Seria difícil entender tamanha dicotomia se ela também não nos fosse tão própria do mundo atual, só não deixa de ser aflitivo. Sei que comprazi-me em muitos momentos - frenéticos ou não - e precisaria realmente revisitá-los com mais calma; folhear novamente as páginas e tentar preencher eu mesma, com paciência, os buracos que permaneceram para mim entre uma entrada e outra, como enxertos literários. Alors... De qualquer forma, deixo alguns trechos para quem quiser embrenhar-se - recomendo que escolham uma forma mais saudável do que a minha para ler (se é que isso existe).


"Quem inventou o casamento foi um torturador astuto. É uma instituição destinada a embotar os sentimentos. Toda a questão do casamento se resume a repetição. O melhor que ele almeja é a criação de dependências fortes e mútuas.

Brigas acabam perdendo todo o sentido, a menos que a pessoa esteja pronta a agir sobre elas - ou seja, terminar o casamento. Assim, depois do primeiro ano, a pessoa para de "perdoar" depois das brigas - apenas recai num silêncio irritado, que passa a um silêncio comum, e depois continua outra vez." ( 4/9/56; S.S. aos 23 anos, casada com Philip Rieff)

"Se apresentada aos meus bisnetos, no dia das minhas bodas de ouro?'Bisavó, você tinha sentimentos?' 'Sim. Foi uma doença que peguei na adolescência. Mas fiquei curada.'" (6/1/57; S.S. quase com 24 anos, ainda com P.R.)

"Nunca obter aquilo que se quer é nunca querer (por muito tempo) aquilo que se obtém - exceto, às vezes, quando é tomado à força" (26/2/58; S.S. aos 24 anos, refletindo sobre seu relacionamento com Harriet)

"Amar magoa. É como se oferecer para ser esfolada, e sabendo que a qualquer momento a pessoa pode simplesmente ir embora levando sua pele" (8/8/60; S.S. aos 26 anos, dentro de seu relacionamento com Irene Fornes)

"O medo de ficar velha nasce do reconhecimento de que não estamos vivendo agora a vida que desejamos. É equivalente a sensação de maltratar o presente" (19/12/61; S.S. aos 27 anos)

"Escrevo para definir a mim mesma - um ato de autocriação - parte do processo de tornar-se - Num diálogo consigo mesma, com escritores que admiro, vivos e mortos, com leitores ideiais..." (início de 1962; S.S. aos 28 anos)


Diários (1947-1963)
Susan Sontag
organização de David Rieff
Ed. Cia das Letras
336 páginas



Susan Sontag (1933-2004) foi uma escritora, crítica de arte e ativista norte-americana.

domingo, 9 de maio de 2010

"quatro doses de conhaque" - Leonardo Marona, poesia

gosto de lamber impurezas
no meio de dobras quebradiças
e certamente alguma alma antiga,
algum espírito recém-decapitado,
fala por mim nessas noites ou tardes
escuras de vento semelhante a vozes
no timbre das quais em vão procuro
o sal do tesão, a boca falsa do amor.




(poema do livro "pequenas biografias não-autorizadas", Leonardo Marona, Ed. 7 Letras)

O querido Leo se encontra também neste sítio:ASA NISI MASA

sexta-feira, 7 de maio de 2010

,Nicolas Behr, Poesias...

Palavra Final

amai-vos uns aos outros
e o resto que se foda


...

Erik Aprende Inglês

se filme é film
e carro é car
então caneta é can
e perna é per


...

eu sei que errei
mas prometo
nunca mais
usar a palavra certa


(do livro de poesias "Laranja Seleta", Nicolas Behr, Editora Língua Geral)

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Espera - Bertold Brecht

O sr. K. esperou algo por um dia, depois por uma semana, e depois ainda por um mês. Por fim ele disse: "Um mês eu poderia muito bem esperar, mas não este dia e esta semana".


(do livro "Histórias do sr. Keuner", Bertold Brecht, tradução de Paulo César de Souza, Editora 34)

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O Poço / Para uma Tumba sem Nome - Juan Carlos Onetti, Novelas

É preciso um certo fôlego. O mesmo - ou ao menos muito semelhante - com que buscamos para ler Faulkner ou Kafka. É como um ar quente, abafado. Há uma deliquescência na escrita de Onetti que dissolve uma história na outra, uma prosa na outra, e não nos permite ver com facilidade aonde termina o quê e aonde. É com fôlego que damos algumas braçadas e chegamos ao outro lado do rio - sei lá qual rio, porque até isso soa fosco, esbranquiçado. Mas por isso mesmo é grandioso. Cansativo e grandioso. E respiramos ao final com a vitória de ter acabado e a vitória de não ter chegado precisamente a lugar nenhum - e o que importa não chegar a lugar algum? (De qualquer jeito continuamos os mesmos? Ou só por isso continuamos os mesmos? E por que não continuar? São infinitas perguntas que não necessariamente precisam ser respondidas) É o mesmo desenlace que parecem tomar seus personagens, esse que nós, leitores, tomamos: lugar algum. E estamos bem com isso, mais, estamos satisfeitos. A escrita varia entre o néscio, o lúgrube, escuro, existencial, anelante, lírico, lírico demais.

Nas duas novelas reunidas neste livro, mesmo que em caminhos distintos, revela-se a atmosfera lúdica, ensandecida, ofegante de Onetti. Com exagerada capacidade imagética (porém fugida do realismo), lirismo, bom gosto, cuidado, mau gosto também, lirismo, desdobramento, para os adjetivos. (Lembrem, os adjetivos). Onírico demais.

Em "O Poço" (1939), Onetti conta a história de um homem de 40 anos que angustiado, sozinho e sem tabaco, em um quarto trancado e sujo, resolve escrever a história de sua vida. O narrador-escritor se alterna na exposição da lembrança de sonhos e trechos de acontecimentos vividos em pura assossiação livre. Parece-me às vezes que o sonho aparece como o contraponto, resposta à uma vida por hora fracassada, que não há muito para aproveitar, relatar. Mas por hora, ainda não sei o que de fato é sonho e o que é realidade e até onde se confunde essa fibra fina que Onetti constrói (ou desconstrói) entre os dois.

"Dizem que há diversas maneiras de mentir; mas a mais repugnante de todas é dizer a verdade, a verdade inteira, ocultando a alma dos fatos. Porque os fatos são sempre vazios, são recipientes que vão tomar a forma do sentimento que os preencha." (O narrador-personagem de O Poço, pg 37)


Em “Para uma tumba sem nome” (1959), a história de uma mulher, um homem, e um bode é desnovelada; tenta ser relatada de diversas formas, por diversos ângulos, para um médico que vai juntando seus cacos para compreendê-la e dá também a sua impressão, composição narrativa, sem nunca conseguir chegar à uma versão final. Mas o que importa saber da história de fato? É uma narrativa truncada, que não se encontra, com limites dissolvidos. Há a história dentro da história dentro da história. E por isso mesmo soa fascinante, e por isso mesmo o "lugar nenhum" como citei antes, uma dificuldade um pouco eletrizante: como sair desta coisa nebulosa? E por isso Faulkner, e por isso Kafka. Como descobrir quais os limites, se há limites, para quê limites?

"Não estou mandando que repare nisto ou naquilo; estou sugerindo, simplesmente. Quando lhe peço que repare em algo não o estou ajudando em nada a compreender a história; mas talvez essas sugestões sejam úteis para que se aproxime da minha compreensão da história, da minha história") (Jorge Malábia para o Médico em "Para uma Tumba sem Nome", pag 96)


O Poço / Para uma Tumba sem Nome
Juan Carlos Onetti
Editora Planeta Literário
168 páginas





Juan Carlos Onetti (1909 — 1994) foi um escritor uruguaio. Permaneceu muito tempo inédito, desconhecido (diria quase inóspito) no Brasil, tendo recentemente suas obras lançadas (em nosso português) em função de seu centenário de nascimento em 2009.

domingo, 18 de abril de 2010

Capitaine Haddock - Tintin - Hergé, Quadrinhos..



Quadrinho 2: Isso, p-p-por exemplo! Meu Whisky-ky que se transforma em uma b-b-bola... N-N-Não é... p-p-possível, vejam! Será que eu j-j-já estou muito b-b-bêbado?

Quadrinho 3: Muito b-b-bêbado ou não... um Whisky honesto n-n-não se comporta dessa ma-maneira!... Vamos, aqui, e-e-e imediatamente!...


(do livro Les Aventures de Tintin, On a Marché sur la Lune - Hergé.... As aventuras de Tintin, Explorando a Lua)

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Trágico Versátil, Poesia

(de Ricardo Mendes, que em outros momentos também é meu pai)

Ah! Se as musas soubessem
quão volúvel é o coração dos poetas,
embora vermelho e pulsante como o dos outros homens
fraco e sensível ele é,
amante das vedetas
ferido o coração, cheio de setas,
nomes, lábios, seios, devaneios,
um dicionário sensorial de amores e receios

Ah! Se o peito de um poeta
pudesse ser aberto,
cicatrizes de ilusões apareceriam
raízes sem caules de futuros amores cresceriam
e o poeta morreria de vergonha
ao ter seu superego investigado
como um cego que se sinta desvendado
na escuridão dos próprios olhos
E é só o que basta, esse vazio,
pra que num ímpeto se esqueça
de escrever poesias
meta uma bala na cabeça
e como todo o bom poeta
morra ao raiar do dia


(do livro "Tatuagem", Ricardo Mendes, 86)

domingo, 4 de abril de 2010

Viceversa - Mario Benedetti, Poesia

no original:

Viceversa

Tengo miedo de verte
necesidad de verte
esperanza de verte
desazones de verte

tengo ganas de hallarte
preocupación de hallarte
certidumbre de hallarte
pobres dudas de hallarte

tengo urgencia de oírte
alegría de oírte
buena suerte de oírte
y temores de oírte

o sea
resumiendo
estoy jodido
y radiante
quizá más lo primero
que lo segundo
y también
viceversa.


Aqui tento uma tradução ingênua:

Vice-versa

Tenho medo de ver-te
necessidade de ver-te
esperança de ver-te
inquietudes de ver-te

tenho vontade de encontrar-te
preocupação de encontrar-te
segurança de encontrar-te
pobres dúvidas de encontrar-te

tenho urgência de ouvir-te
alegria de ouvir-te
boa sorte de ouvir-te
e temores de ouvir-te

ou seja
resumindo
estou fodido
e radiante
quiçá mais o primeiro
do que o segundo
e também
vice-versa

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Encorajamento - Guimarães Rosa, Poesia

Meu desejo corre a ti com velas enfunadas...
Podes dar-lhe um porto, sem nenhum receio:
ele não traz âncora...


(do livro "Magma" - João Guimarães Rosa; Ed. Nova Fronteira)