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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Por que não ler Paulo Coelho?
Ou "Por que ler Paulo Coelho?" Também poderia se chamar.
Neste início de ano ganhei um exemplar de um livro do Paulo Coelho de um amigo. Sem poder adiar mais o que eu jáa havia planejado antes - ler Paulo Coelho para tirar eu mesma minhas próprias conclusões sobre este autor que a crítica tanto esmaga - aventurei-me na aventura de mergulhar sobre suas páginas. O exemplar que li foi Brida. Sem querer repetir-me demais, segue parte do email que eu enviei ao tal amigo com as minhas sinceras impressões:
"Se gostei do livro de um modo geral? Não sei. De certo não é uma leitura que me desagrada, li facilmente e ficava angústiada nos momentos em que tinha que parar de ler. O Paulo Coelho sabiamente nos deixa com sede capítulo após capítulo. E por isso li tão rápido, praticamente o engoli. O livro fala de assuntos que tocam meu coração e que entendo bem. É uma linguagem (mistica? espitiual? vital? humana?) que me adoça, me gusta.
Porém de fato não é a literatura que gosto de ler. E nesse ponto talvez eu seja chata. Sinto que tanto a trama quanto a forma com que ele escreve são clichês e não encontro muito do refinamento e a complexidade que tanto gosto nos livros. A narrativa segue uma estrutura básica de tensão, climax, desfecho e catarse, e não inova muito neste ponto. A escrita se mantém com falas simples e usuais, quase esperadas. E na criação dos personagens também me falta, não que me soe simples - porque a simplicidade muitas vezes é uma virtude - talvez seja mais superficial, parece não se preocupar muito na construção das personagens e acaba por criar uma desarmonia (desproposital) às vezes entre o que a personagem fala, deseja e faz. É certo que não são personagens fúteis - não é disso que falo quando me refiro à superficialidade - elas fazem questionamentos profundos mas não se permitem perder-se e entrar nesses questionamentos e abrir a gama de leques e a complexidade que é própria deles - e o ser humano não é mesmo complexo?
enfim,
uma vez li que os livros do Paulo Coelho faziam tanto sucesso porque ao utilizar, por exemplo, frases como "quando você quer alguma coisa, todo Universo conspira para que você realize seu desejo" que determinam bem a maioria de seus livros, acabam por preencher o vazio da sociedade de massa que está afundada em desesperança, e perplexas sem entender o isolamento que se meteu o indivíduo. Porque não enxergam a origem (capitalista, ou seja lá qual) que gera aquilo tudo.
Ao ler o livro, não tenho como não concordar com esta afirmação. Embora ache que a crítica seja severa com o Paulo Coelho. Também acho que ele leva espiritualidade e abre um portal de questionamente de maneira simplificada às pessoas que não chegariam lá de outra forma. E de qualquer jeito, todos precisamos alimentar nossas esperanças e nossas almas - desde que não nos aliene."
Brida
Paulo Coelho
Editora Planeta
264 páginas
Paulo Coelho ((Rio de Janeiro, 24 de agosto de 1947) é um escritor, de muitos Best Sellers, brasileiro.
Neste início de ano ganhei um exemplar de um livro do Paulo Coelho de um amigo. Sem poder adiar mais o que eu jáa havia planejado antes - ler Paulo Coelho para tirar eu mesma minhas próprias conclusões sobre este autor que a crítica tanto esmaga - aventurei-me na aventura de mergulhar sobre suas páginas. O exemplar que li foi Brida. Sem querer repetir-me demais, segue parte do email que eu enviei ao tal amigo com as minhas sinceras impressões:
"Se gostei do livro de um modo geral? Não sei. De certo não é uma leitura que me desagrada, li facilmente e ficava angústiada nos momentos em que tinha que parar de ler. O Paulo Coelho sabiamente nos deixa com sede capítulo após capítulo. E por isso li tão rápido, praticamente o engoli. O livro fala de assuntos que tocam meu coração e que entendo bem. É uma linguagem (mistica? espitiual? vital? humana?) que me adoça, me gusta.
Porém de fato não é a literatura que gosto de ler. E nesse ponto talvez eu seja chata. Sinto que tanto a trama quanto a forma com que ele escreve são clichês e não encontro muito do refinamento e a complexidade que tanto gosto nos livros. A narrativa segue uma estrutura básica de tensão, climax, desfecho e catarse, e não inova muito neste ponto. A escrita se mantém com falas simples e usuais, quase esperadas. E na criação dos personagens também me falta, não que me soe simples - porque a simplicidade muitas vezes é uma virtude - talvez seja mais superficial, parece não se preocupar muito na construção das personagens e acaba por criar uma desarmonia (desproposital) às vezes entre o que a personagem fala, deseja e faz. É certo que não são personagens fúteis - não é disso que falo quando me refiro à superficialidade - elas fazem questionamentos profundos mas não se permitem perder-se e entrar nesses questionamentos e abrir a gama de leques e a complexidade que é própria deles - e o ser humano não é mesmo complexo?
enfim,
uma vez li que os livros do Paulo Coelho faziam tanto sucesso porque ao utilizar, por exemplo, frases como "quando você quer alguma coisa, todo Universo conspira para que você realize seu desejo" que determinam bem a maioria de seus livros, acabam por preencher o vazio da sociedade de massa que está afundada em desesperança, e perplexas sem entender o isolamento que se meteu o indivíduo. Porque não enxergam a origem (capitalista, ou seja lá qual) que gera aquilo tudo.
Ao ler o livro, não tenho como não concordar com esta afirmação. Embora ache que a crítica seja severa com o Paulo Coelho. Também acho que ele leva espiritualidade e abre um portal de questionamente de maneira simplificada às pessoas que não chegariam lá de outra forma. E de qualquer jeito, todos precisamos alimentar nossas esperanças e nossas almas - desde que não nos aliene."
BridaPaulo Coelho
Editora Planeta
264 páginas
Paulo Coelho ((Rio de Janeiro, 24 de agosto de 1947) é um escritor, de muitos Best Sellers, brasileiro.
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O Coração é um Caçador Solitário - Carson McCullers, Romance

O Coração é um Caçador Solitário de Carson McCullers é um livro muito sofrido, de leitura às vezes quase infantil, mas de uma crueza que nos depara o tempo todo com a inevitável solidão humana. O livro narra a história de cinco personagens que às cegas procuram respostas e rostos humanos para as suas angústias, pensamentos, desejos, ideologias internas. Em vão os cinco personagens parecem vagar no escuro cada vez que tentam falar e discorrer com os outros sobre o que se passa por dentro deles, cada um à sua maneira. O único personagem que parece dar algum alento aos seus pobres corações aflitos em busca por co-existência é um mudo, John Singer, que os "escuta" educadamente sorrindo, com paciência, a cada um que vai visitá-lo. Este é o único que une todos os personagens de maneira mais direta e os faz sentir-se um pouco menos sofridos em sua solidão diária, embora este mesmo seja obrigado em certos momentos da obra a mergulhar dentro de si mesmo, nas noites escuras ou seja lá em quais situações, em que parece buscar alguma resposta para sua própria existência sozinho. Resposta é o que todos procuram, mas resposta para quais perguntas? É um dos questionamentos que Biff Brannon um dos personagens se faz ao longo do Romance. É impossível não se intrigar com os gritos surdos de cada um e não olhar para si mesmo e se deparar também com a solidão que imprescindivelmente vivemos ou somos.
O Coração é um Caçador Solitário
Carson McCullers
Editora Cia das Letras
453 páginas
Carson McCuller (19 de fevereiro de 1917, Columbus, Georgia – 29 de setembro de 1967, Nyack, New York) foi uma escritora Norte-Americana e escreveu este livro com apenas 22 anos de idade, sendo seu primeiro romance.
sábado, 16 de janeiro de 2010
Pontos de vista de um palhaço - Heirinch Böll, Romance
Pontos de vista de um palhaço conta a história de Hans Schnier, um palhaço profissional que apesar de ter feito muito sucesso entra em decadecência após ser abandonado por Marie, seu grande amor. Schnier passa a beber e perde a inspiração, se torna um palhaço mediocre, melancólico e triste. É irônico e ácido como ninguém ao narrar e debochar da moral católica e das impressões do pós-guerra a qual se encontra a Alemanha. Está sempre, (além de sofrido, apaixonado, e bêbado) cutucando as feridas e as falhas de caráter dos outros personagens que se encontram dentro desta turma, principalmente os religiosos que o julgam, escondem e protegem Marie, e sua mãe que anteriormente parece ter sido conivente com o Nazismo.Como Schnier está falido, com o joelho machucado e quase passando fome, é obrigado a pedir dinheiro emprestado a qualquer custo para seja quem for. Telefona para todas as pessoas que conhece, inclusive os católicos que abomina, apelando para um suporto sentimento cristão (com muita ironia, é claro). O romance é dividido entre lembranças do passado em que ainda vivia com Marie e o (decadente) presente.
"Não sou religioso, nem ligação com a igreja eu tenho, só me sirvo dos textos e das melodias litúrgicas por razões terapêuticas: é o que mais me ajuda a superar os dois sofrimentos que por natureza carrego comigo: melancolia e dor de cabeça. Desde que Marie se bandeou para o lado dos católicos (embora Marie seja católica, acho adequada minha formulação), ficaram mais intensos esses dois sofrimentos, e mesmo o Tantum Ergo ou a Ladainha Lauretana, meus analgésicos favoritos até aqui, quase já não surtem efeito. Um medicamento vem funcionando por enquanto: o álcool - haveria uma cura definitiva: Marie; Marie me abandonou. E se palhaço começa a beber, a decadência é certa, cai mais rápido que telhador embriagado despencando do telhado." trecho página 11.
Pontos de vista de um palhaço
Heinrich Böll
Editora Estação Liberdade
308 páginas.

Heinrich Böll (Colónia, 21 de Dezembro de 1917 — Kreuzau, 16 de Julho de 1985) foi um escritor vencedor do prêmio Nobel, alemão, do período do pós guerra.
Uma noite no bolero - Carlos Heitor Cony, Crônica
OS FESTIVAIS antigamente eram festejos dos outros. Havia a citação obrigatória: "Em seguida, o festejado autor...". Ora, se Maomé não vai à montanha que a montanha vá a Maomé, donde: se ninguém festeja os escritores, nada de mais que os próprios se festejem.
Os latinos tinham para isso uma frase amarga: "Asinus asinus fricat". Se os burros podem se coçar uns aos outros, a analogia é válida: que os inteligentes cocem os inteligentes.
Confraternização da Cultura Brasileira (Noite da). Palavras assim existem para essas horas. O gênio passeando pelos corredores empoeirados do Shopping Center, aferindo o próprio sucesso. A crítica recebeu muito bem o livro, o Adonias chamou-o de Faulkner e o Brito Broca de Flaubert.
Ninguém sabe o que está perdendo, mas ali está Flaubert dentro de Faulkner, e ambos dentro do sujeito magro e de paletó mal feito. Vem a bandeja dos salgadinhos e Faulkner se atrapalha com a azeitona que caiu do palito de Sartre (há Sartre também no Shopping Center).
Quem apanha a azeitona é o Dostoiévski do Piauí. Humildemente, com a insignificância de ovelha negra da classe, mastigo um magro pastel, sossegado e livre, perto do bar onde servem uísque. Aperto a mão de Sainte-Beuve e cumprimento obliquamente Henry Miller, que passa de braços dados com o Antonio Callado.
Pound me pergunta onde tem água mineral, eu aponto o fundo do bar, onde Balzac conta uma anedota envolvendo papagaio e mulher da vida. Saio do bar, evito Tolstói, que me deve R$ 500, espremo um lugarzinho entre Faulkner-Flaubert e empurro John dos Passos para conseguir um sanduíche. Abro o pão: tiraram o salame. Passa perto de mim o próprio Homero mastigando meu salame. Confraternização da cultura universal.
Armaram minha humilde tenda em frente à barraca do Graham Greene, o qual perambulava pelo Brasil como um delegado de um congresso pró-liberdade de não sei mais o quê. Não adiantou o poeta Walmir Ayala armar comício em frente à minha tenda: todo mundo ia para a barraca do autor do "Terceiro Homem".
Mas não havia terceiro, nem segundo, nem homem algum na barraca do Graham Greene. Pela minhas barbas passaram Alceu de Amoroso Lima, Gustavo Corção e Antonio Carlos Villaça. Naqueles tempos, os três rezavam e liam pelo mesmo catecismo e cartilha. Procuravam o autor de "Ensaios Católicos" para uma missazinha no Mosteiro de São Bento ou uma palestra sobre a Eucaristia no Centro Dom Vital.
Procuraram, procuraram, esperaram, esperaram, até que desanimaram: Graham Greene não viria ao Festival. Começaram a empilhar os livros, as fãs se dispersavam e a santíssima trindade do Centro Dom Vital foi para casa.
Saí de lá quando as luzes se apagavam. Não havia jantado e de repente desemboquei na calçada do Bolero, dando sopa para um sanduíche com chope honesto. Do andar de cima vinha o som da orquestra, aquele pianista que parece o Orson Welles dando socos no piano sem marfim.
Subi para ver as caras, há muitos anos não penetrava naquela pastagem do pecado. No canto mais escuro da sala, silhueta enorme e meio curva, vi Graham Greene com uma loura a tiracolo. Greene nem tirara da lapela aquele laço com nome e endereço que os congressistas usam para chamar a atenção dos que não dão atenção a nada. A orquestra tocava "A Noite do meu Bem", mas Greene teimava em cantar Siboney. A loura ria e o escuro da sala acentuava a caverna de sua boca com maus dentes.
Desci correndo à procura de um telefone. Mas as redações estavam fechadas. Tentei telefonar para o Alceu, o Corção, o Villaça. Mas o único telefone que encontrei foi o do Corção, inútil por sinal, o professor desliga seu aparelho após o canto das "Completas" e só torna a ligá-lo após as "Matinas" do novo dia do Senhor que se lhe abre à frente.
Villaça devia estar dormindo, e nem o Pão de Açúcar em erupção o despertaria. Saí então em busca de testemunhas. No "Le Roind Point" encontrei Antonio Maria e Paulo Francis. Voltamos ao segundo andar do Bolero. Graham Greene já tinha saído. Mas o garçom confirmou a história: "O inglês deu uma boa gorjeta. Sim, sim, levou a loura".
(coluna retirada da página Ilustrada da Folha de SP do dia 4/12/09)
Os latinos tinham para isso uma frase amarga: "Asinus asinus fricat". Se os burros podem se coçar uns aos outros, a analogia é válida: que os inteligentes cocem os inteligentes.
Confraternização da Cultura Brasileira (Noite da). Palavras assim existem para essas horas. O gênio passeando pelos corredores empoeirados do Shopping Center, aferindo o próprio sucesso. A crítica recebeu muito bem o livro, o Adonias chamou-o de Faulkner e o Brito Broca de Flaubert.
Ninguém sabe o que está perdendo, mas ali está Flaubert dentro de Faulkner, e ambos dentro do sujeito magro e de paletó mal feito. Vem a bandeja dos salgadinhos e Faulkner se atrapalha com a azeitona que caiu do palito de Sartre (há Sartre também no Shopping Center).
Quem apanha a azeitona é o Dostoiévski do Piauí. Humildemente, com a insignificância de ovelha negra da classe, mastigo um magro pastel, sossegado e livre, perto do bar onde servem uísque. Aperto a mão de Sainte-Beuve e cumprimento obliquamente Henry Miller, que passa de braços dados com o Antonio Callado.
Pound me pergunta onde tem água mineral, eu aponto o fundo do bar, onde Balzac conta uma anedota envolvendo papagaio e mulher da vida. Saio do bar, evito Tolstói, que me deve R$ 500, espremo um lugarzinho entre Faulkner-Flaubert e empurro John dos Passos para conseguir um sanduíche. Abro o pão: tiraram o salame. Passa perto de mim o próprio Homero mastigando meu salame. Confraternização da cultura universal.
Armaram minha humilde tenda em frente à barraca do Graham Greene, o qual perambulava pelo Brasil como um delegado de um congresso pró-liberdade de não sei mais o quê. Não adiantou o poeta Walmir Ayala armar comício em frente à minha tenda: todo mundo ia para a barraca do autor do "Terceiro Homem".
Mas não havia terceiro, nem segundo, nem homem algum na barraca do Graham Greene. Pela minhas barbas passaram Alceu de Amoroso Lima, Gustavo Corção e Antonio Carlos Villaça. Naqueles tempos, os três rezavam e liam pelo mesmo catecismo e cartilha. Procuravam o autor de "Ensaios Católicos" para uma missazinha no Mosteiro de São Bento ou uma palestra sobre a Eucaristia no Centro Dom Vital.
Procuraram, procuraram, esperaram, esperaram, até que desanimaram: Graham Greene não viria ao Festival. Começaram a empilhar os livros, as fãs se dispersavam e a santíssima trindade do Centro Dom Vital foi para casa.
Saí de lá quando as luzes se apagavam. Não havia jantado e de repente desemboquei na calçada do Bolero, dando sopa para um sanduíche com chope honesto. Do andar de cima vinha o som da orquestra, aquele pianista que parece o Orson Welles dando socos no piano sem marfim.
Subi para ver as caras, há muitos anos não penetrava naquela pastagem do pecado. No canto mais escuro da sala, silhueta enorme e meio curva, vi Graham Greene com uma loura a tiracolo. Greene nem tirara da lapela aquele laço com nome e endereço que os congressistas usam para chamar a atenção dos que não dão atenção a nada. A orquestra tocava "A Noite do meu Bem", mas Greene teimava em cantar Siboney. A loura ria e o escuro da sala acentuava a caverna de sua boca com maus dentes.
Desci correndo à procura de um telefone. Mas as redações estavam fechadas. Tentei telefonar para o Alceu, o Corção, o Villaça. Mas o único telefone que encontrei foi o do Corção, inútil por sinal, o professor desliga seu aparelho após o canto das "Completas" e só torna a ligá-lo após as "Matinas" do novo dia do Senhor que se lhe abre à frente.
Villaça devia estar dormindo, e nem o Pão de Açúcar em erupção o despertaria. Saí então em busca de testemunhas. No "Le Roind Point" encontrei Antonio Maria e Paulo Francis. Voltamos ao segundo andar do Bolero. Graham Greene já tinha saído. Mas o garçom confirmou a história: "O inglês deu uma boa gorjeta. Sim, sim, levou a loura".
(coluna retirada da página Ilustrada da Folha de SP do dia 4/12/09)
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Latino-Americanos
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
Como ser um grande escritor - Charles Bukowski, Poema
você tem que trepar com um grande número de mulheres
belas mulheres
e escrever uns poucos e decentes poemas de amor.
e não se preocupe com a idade
e/ou com os talentos frescos e recém-chegados.
apenas beba mais cerveja
mais e mais cerveja
e vá às corridas pelo menos uma vez por
semana
e vença
se possível.
aprender a vencer é difícil -
qualquer frouxo pode ser um bom perdedor.
e não se esqueça do Brahms
e do Bach e também da sua
cerveja.
não exagere no exercício.
durma até o meio-dia.
evite cartões de crédito
ou pagar qualquer conta
no prazo.
lembre-se que nenhum rabo no mundo
vale mais do que 50 pratas.
(em 1977).
e se você tem a capacidade de amar
ame primeiro a si mesmo
mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma
derrota total
mesmo que a razão para essa derrota
pareça certa ou errada -
um gosto precoce de morte não é necessariamente
uma coisa má.
fique longe de igrejas e bares e museus,
e como a aranha seja
paciente -
o tempo é a cruz de todos,
mais o
exílio
a derrota
a traição
todo este esgoto.
fique com a cerveja.
a cerveja é o sangue contínuo.
uma amante contínua.
arranje uma grande máquina de escrever
e assim como os passos que sobem e descem
do lado de fora de sua janela
bata na máquina
bata forte
faça disso um combate de pesos pesados
faça como o touro no momento do primeiro ataque
e lembre dos velhos cães
que brigavam tão bem:
Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.
se você pensa que eles ficaram loucos
em quartos apertados
assim como este em que agora você está
sem mulheres
sem comida
sem esperança
então você não está pronto.
beba mais cerveja.
há tempo.
e se não há
está tudo certo
também.
(retirado de "O Amor é um Cão dos Diabos", traduzido por Pedro Gonzaga)
belas mulheres
e escrever uns poucos e decentes poemas de amor.
e não se preocupe com a idade
e/ou com os talentos frescos e recém-chegados.
apenas beba mais cerveja
mais e mais cerveja
e vá às corridas pelo menos uma vez por
semana
e vença
se possível.
aprender a vencer é difícil -
qualquer frouxo pode ser um bom perdedor.
e não se esqueça do Brahms
e do Bach e também da sua
cerveja.
não exagere no exercício.
durma até o meio-dia.
evite cartões de crédito
ou pagar qualquer conta
no prazo.
lembre-se que nenhum rabo no mundo
vale mais do que 50 pratas.
(em 1977).
e se você tem a capacidade de amar
ame primeiro a si mesmo
mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma
derrota total
mesmo que a razão para essa derrota
pareça certa ou errada -
um gosto precoce de morte não é necessariamente
uma coisa má.
fique longe de igrejas e bares e museus,
e como a aranha seja
paciente -
o tempo é a cruz de todos,
mais o
exílio
a derrota
a traição
todo este esgoto.
fique com a cerveja.
a cerveja é o sangue contínuo.
uma amante contínua.
arranje uma grande máquina de escrever
e assim como os passos que sobem e descem
do lado de fora de sua janela
bata na máquina
bata forte
faça disso um combate de pesos pesados
faça como o touro no momento do primeiro ataque
e lembre dos velhos cães
que brigavam tão bem:
Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.
se você pensa que eles ficaram loucos
em quartos apertados
assim como este em que agora você está
sem mulheres
sem comida
sem esperança
então você não está pronto.
beba mais cerveja.
há tempo.
e se não há
está tudo certo
também.
(retirado de "O Amor é um Cão dos Diabos", traduzido por Pedro Gonzaga)
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
O mundo ideal e o real - Tostão, Coluna
Este um mundo real, muitas vezes violento, injusto, ganancioso e preconceituoso, e outro ideal, que sonhamos viver, embora façamos pouco para isso. A melhor maneira de fazer algo não é ser bonzinho no Natal nem praticar alguns atos generosos para reparar a culpa real e/ou imaginária. É, principalmente, ser, todos os dias, um bom cidadão. Não é fácil. São muitas as tentações.
Quanto maior a distância entre o mundo real e ideal, maior é o desamparo. É a mesma relação individual entre ego e ego ideal. ``Sou o que penso, mas penso ser tantas coisas`` (Fernando Pessoa).
Escuto, desde criança, que o esporte é o lugar ideal para as pessoas aprenderem e desenvolverem os valores éticos. Isso nunca foi verdade no esporte de competição e de alto nível. O gol, com a ajuda da mão, que classificou a França para a Copa é mais um de dezenas de exemplos. Nesses lances especiais e decisivos, em que não há dúvidas, o quarto árbitro, com a ajuda da TV, deveria anular o gol.
Na emoção de uma partida, os atletas, na busca por glória e dinheiro, pressionados para vencer, demonstram, em atos falhos ou conscientes, toda a desmedida ambição e toda a esperteza humana.
Um dos motivos relatados para o recente suicídio do goleiro Robert Enke, da Seleção Alemã, foi o medo que tinha do fracasso. Isso contribuiu para piorar sua crônica depressão. Perder é morrer.
No mundo ideal, os atletas entrariam em campo somente para jogar futebol, com alegria, e respeitariam companheiros, adversários, árbitros e auxiliares, além de tentar dar bons espetáculos.
No mundo real, os jogos, em todo o planeta, principalmente na América do Sul, estão cada dia mais tensos, tumultuados e violentos. Durante a semana, houve pancadaria em dois jogos no Brasil, um no Uruguai e outro na África.
Muitos treinadores e dirigentes, mesmo sem intenção, estimulam a violência com os discursos de ganhar a batalha, perder a guerra, jogar com muita pegada, além das ofensas aos árbitros.
O que houve com Obina e Maurício e também com Hugo e André Dias (estes não trocaram socos) já aconteceu várias vezes com outros jogadores. Os atletas não suportam a pressão de ter de vencer. Agridem antes de serem agredidos. Técnico adora também passar a mão na cabeça de jogador violento.
Se Obina e Maurício tivessem agredido os adversários, e o Palmeiras tivesse vencido, provavelmente os dois não seriam punidos pelo clube. Talvez, recebessem até elogios por suas bravuras.
No mundo ideal, a imprensa cobraria, com ênfase, mais qualidade técnica e menos violência. No real, parte da mídia incorporou o discurso dos técnicos de que o importante é o resultado e que, no futebol moderno e de muita marcação, não há mais lugar para futebol bonito e com poucas faltas.
No meu mundo ideal, queria assistir aos jogos somente com o olhar de um poeta e de um apreciador das coisas belas de um espetáculo. No meu mundo real, preciso ser também pragmático e um analista técnico e tático. Tento unir os dois mundos. Nem sempre consigo. Os dois se estranham.
(coluna retirada da página de Esportes da Folha De S.P do dia 22/11/09)
Tostão é um ex-jogador de futebol brasileiro, médico e colunista da folha da página de Esportes.
Quanto maior a distância entre o mundo real e ideal, maior é o desamparo. É a mesma relação individual entre ego e ego ideal. ``Sou o que penso, mas penso ser tantas coisas`` (Fernando Pessoa).
Escuto, desde criança, que o esporte é o lugar ideal para as pessoas aprenderem e desenvolverem os valores éticos. Isso nunca foi verdade no esporte de competição e de alto nível. O gol, com a ajuda da mão, que classificou a França para a Copa é mais um de dezenas de exemplos. Nesses lances especiais e decisivos, em que não há dúvidas, o quarto árbitro, com a ajuda da TV, deveria anular o gol.
Na emoção de uma partida, os atletas, na busca por glória e dinheiro, pressionados para vencer, demonstram, em atos falhos ou conscientes, toda a desmedida ambição e toda a esperteza humana.
Um dos motivos relatados para o recente suicídio do goleiro Robert Enke, da Seleção Alemã, foi o medo que tinha do fracasso. Isso contribuiu para piorar sua crônica depressão. Perder é morrer.
No mundo ideal, os atletas entrariam em campo somente para jogar futebol, com alegria, e respeitariam companheiros, adversários, árbitros e auxiliares, além de tentar dar bons espetáculos.
No mundo real, os jogos, em todo o planeta, principalmente na América do Sul, estão cada dia mais tensos, tumultuados e violentos. Durante a semana, houve pancadaria em dois jogos no Brasil, um no Uruguai e outro na África.
Muitos treinadores e dirigentes, mesmo sem intenção, estimulam a violência com os discursos de ganhar a batalha, perder a guerra, jogar com muita pegada, além das ofensas aos árbitros.
O que houve com Obina e Maurício e também com Hugo e André Dias (estes não trocaram socos) já aconteceu várias vezes com outros jogadores. Os atletas não suportam a pressão de ter de vencer. Agridem antes de serem agredidos. Técnico adora também passar a mão na cabeça de jogador violento.
Se Obina e Maurício tivessem agredido os adversários, e o Palmeiras tivesse vencido, provavelmente os dois não seriam punidos pelo clube. Talvez, recebessem até elogios por suas bravuras.
No mundo ideal, a imprensa cobraria, com ênfase, mais qualidade técnica e menos violência. No real, parte da mídia incorporou o discurso dos técnicos de que o importante é o resultado e que, no futebol moderno e de muita marcação, não há mais lugar para futebol bonito e com poucas faltas.
No meu mundo ideal, queria assistir aos jogos somente com o olhar de um poeta e de um apreciador das coisas belas de um espetáculo. No meu mundo real, preciso ser também pragmático e um analista técnico e tático. Tento unir os dois mundos. Nem sempre consigo. Os dois se estranham.
(coluna retirada da página de Esportes da Folha De S.P do dia 22/11/09)
Tostão é um ex-jogador de futebol brasileiro, médico e colunista da folha da página de Esportes.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Cambalache - Mario Benedetti, Conto
Aquele time de futebol, rio-platense (não darei mais detalhes, pois o que interessa aqui é a anedota, não o nome dos atores), chegou à Europa apenas 24 horas antes da sua primeira partida contra uma das mais prestigiosas equipes do Velho Continente (aqui também não darei maiores detalhes). Mal tiveram tempo para um breve treino, num estádio mais ou menos secundário, com um gramado desastroso.
Quando por fim entraram no verdadeiro campo (ou field, como preferem alguns puristas), ficaram estupefatos com as colossais dimensões do estádio, com as arquibancadas lotadas e vociferantes, e também com a atmosfera gélida de um janeiro implacável.
Como de praxe, as duas equipes se alinharam para ouvir e cantar os hinos. Primeiro, logicamente, o dos locais, entoado pelo público e pelos jogadores, seguido de uma intensa ovação.
Depois foi a vez do nosso. A gravação era horrível, com uma desafinação realmente olímpica. Nem todos os jogadores sabiam a letra inteira, mas acompanharam pelo menos a estrofe mais conhecida. Um dos atletas, casualmente um atacante, embora se lembrasse do hino, resolveu cantar no lugar dele o tango "Cambalache": "Que el mundo fue y será una porquería, ya no lo sé, en el quinientos seis, y en dos mil también." Só na tribuna de honra, alguns poucos aplaudiram por obrigação.
Finda essa parte da cerimônia e antes do ponta-pé inicial, que escreve a cargo de um encarquilhado ator do cinema mudo, os jogadores rio-platenses rodearam o atacante rebelde e o repreenderam duranmente por cantar um tango em vez do hino. Entre outros amáveis epítetos, els o chamaram de traídor, apátrida, sabotador e cretino.
O incidente teve inesperadas repercussões no jogo. No início, os demais jogadores evitaram passar a bola para o sabotador, de maneira que este, para tomá-la, era obrigado a recuar quase até a linha defensiva e depois avançar muito, esquivando-se dos robustos adversários e passando-a em seguida (porque não era egoísta) a quem estivesse melhor colocado para chutar a gol.
Os europeus jogaram melhor, mas faltavam poucos minutos para o apito final e nenhum dos dois times conseguira vazar a meta adversária. E assim foi até os 43 minutos do segundo tempo. Foi então que o apátrida tomou a bola num rebote e empreendeu sua desafiante disparada rumo ao gol adversário. Penetrou na grande área e, já que até então seus companheiros haviam desperdiçado as boas chances que lhes dera, driblou dois zagueiros com três gingadas geniais e, quando o goleiro saiu espavorido tentando cobrir o ângulo, o cretino ameaçou chutar com a direita mas chutou com a esquerda, a bola num inalcançável canto da trave. Foi o gol da vitória.
A segunda partida aconteceu em outra cidade (não entro em detalhes), num estádio igualmente imponente e com as arquibancadas lotadas. Lá também chegou a hora dos hinos. Primeiro o do time da casa e depois o dos visitantes. Embora a trilha sonora seguisse por outro lado, os 18 jogadores, perfeitamnete alinhados e com a mão direita sobre o peito, cantaram o tango "Cambalache", cuja letra, esta sim, todos sabiam de cor.
Apesar da vitória também nessa partida (não me lembro do resultado exato), os indignados dirigentes resolveram cancelar a excursão européia e multar todos os jogadores, sem exceção, acusando-os de traidores, apátridas, sabotadores e cretinos.
(Conto retirado do livro "Correios do Tempo", Mario Benedetti, Editora Objetiva)

Nota: Mario Benedetti (Paso de los Toros, 14 de setembro de 1920 — Montevidéu, 17 de maio de 2009) foi um poeta, escritor e ensaísta uruguaio.
Quando por fim entraram no verdadeiro campo (ou field, como preferem alguns puristas), ficaram estupefatos com as colossais dimensões do estádio, com as arquibancadas lotadas e vociferantes, e também com a atmosfera gélida de um janeiro implacável.
Como de praxe, as duas equipes se alinharam para ouvir e cantar os hinos. Primeiro, logicamente, o dos locais, entoado pelo público e pelos jogadores, seguido de uma intensa ovação.
Depois foi a vez do nosso. A gravação era horrível, com uma desafinação realmente olímpica. Nem todos os jogadores sabiam a letra inteira, mas acompanharam pelo menos a estrofe mais conhecida. Um dos atletas, casualmente um atacante, embora se lembrasse do hino, resolveu cantar no lugar dele o tango "Cambalache": "Que el mundo fue y será una porquería, ya no lo sé, en el quinientos seis, y en dos mil también." Só na tribuna de honra, alguns poucos aplaudiram por obrigação.
Finda essa parte da cerimônia e antes do ponta-pé inicial, que escreve a cargo de um encarquilhado ator do cinema mudo, os jogadores rio-platenses rodearam o atacante rebelde e o repreenderam duranmente por cantar um tango em vez do hino. Entre outros amáveis epítetos, els o chamaram de traídor, apátrida, sabotador e cretino.
O incidente teve inesperadas repercussões no jogo. No início, os demais jogadores evitaram passar a bola para o sabotador, de maneira que este, para tomá-la, era obrigado a recuar quase até a linha defensiva e depois avançar muito, esquivando-se dos robustos adversários e passando-a em seguida (porque não era egoísta) a quem estivesse melhor colocado para chutar a gol.
Os europeus jogaram melhor, mas faltavam poucos minutos para o apito final e nenhum dos dois times conseguira vazar a meta adversária. E assim foi até os 43 minutos do segundo tempo. Foi então que o apátrida tomou a bola num rebote e empreendeu sua desafiante disparada rumo ao gol adversário. Penetrou na grande área e, já que até então seus companheiros haviam desperdiçado as boas chances que lhes dera, driblou dois zagueiros com três gingadas geniais e, quando o goleiro saiu espavorido tentando cobrir o ângulo, o cretino ameaçou chutar com a direita mas chutou com a esquerda, a bola num inalcançável canto da trave. Foi o gol da vitória.
A segunda partida aconteceu em outra cidade (não entro em detalhes), num estádio igualmente imponente e com as arquibancadas lotadas. Lá também chegou a hora dos hinos. Primeiro o do time da casa e depois o dos visitantes. Embora a trilha sonora seguisse por outro lado, os 18 jogadores, perfeitamnete alinhados e com a mão direita sobre o peito, cantaram o tango "Cambalache", cuja letra, esta sim, todos sabiam de cor.
Apesar da vitória também nessa partida (não me lembro do resultado exato), os indignados dirigentes resolveram cancelar a excursão européia e multar todos os jogadores, sem exceção, acusando-os de traidores, apátridas, sabotadores e cretinos.
(Conto retirado do livro "Correios do Tempo", Mario Benedetti, Editora Objetiva)

Nota: Mario Benedetti (Paso de los Toros, 14 de setembro de 1920 — Montevidéu, 17 de maio de 2009) foi um poeta, escritor e ensaísta uruguaio.
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Amar - Drummond
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
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sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Manhã sem vestígio - Carlos Heitor Cony, Crônica
FAZ TEMPO: tinha as manhãs livres, alma e corpo também livres. Conhecia um atalho que subia para o morro onde havia paisagem e solidão. Uma antiga estrada de saibro, toda arrebentada, parecia-me impossível para carro. Ia a pé, então saboreando os pasos e o sol que descia sobre meus ombros e me abençoava.
Fui lá diversas vezes. Geralmente, ia de mãos abanando, apenas pelo prazer de andar, ter o sol e a manhã. Raramente levava um livro. De qualquer forma sempre sabia que ia para um lugar onde podia ficar sozinhi e tranquilo, pensar em coisas que aqui embaixo já ia perdendo o hábito de pensar.
Encostava a cabeça num pé de quaresmeira, que, em determinadas épocas do ano, em fevereiro, sobretudo, ficava roxo. Deixava o maço de cigarros ao lado e consumia minha manhã e minha liberdade procurando ressuscitar um trecho de minha vida, uma etapa de minha caminhada. Na realidade, nada ia procurar, deixando que a liberdade e a manhã me levassem a um roteiro que escolhia na hora, sem saber onde iria dar, nem mesmo se me daria em algum lugar.
Destacava um ano: 1943, por exemplo.
E começava por janeiro: Itaipava, passeios a cavalo, padre Castro Pinto lendo os telegramas que falavam da guerra, o tombo do Macário, a noite em que fiquei preso na despensa - a chave quebrara na fechadura e tive de dormir em cima dos sacos de farinha, só no dia seguinte vieram me buscar.
- Isso não foi em 1943. Foi em 42. Talvez em 44. Talvez no ano passado em Marienbad.
Pois, em manhã assim, ouvi de repente um ruído: o carro subia, gemendo, a velha estrada. Logo vi, coberto pelas moitas do capim mais alto, a capota do carro fazendo a curva e, logo depois, os gordos pneus, maltratados pelas pedras e pelo calor que o carro me trouxe subitamente quando estacou a minha frente.
- Desculpe, não viemos incomodar ninguém.
A frase era ociosa, mas o homem que saiu do volante julgou-se obrigado a dizer qualquer coisa. Eu poderia dizer coisa parecida, "também não quero incomodar ninguém", mas preferi ficar quieto e aguardar os acontecimentos, que logo começaram a acontecer.
O homem do volante deu a volta por trás do carro e abriu a outra porta. Do ângulo que estava, deitado quase no chão, não via quem vinha ali. E vi o primeiro uma perna gordinha e queimada de praia. Depois, um joelho adolescente, e logo uma saia azul-marinho.
Não olhei mais nada. Vi depois o vulto da colegial sumindo pelo início da mata, os cabelos louros batendo nos ombros, a blusinha justa falando de uma seiva que eu sentia sem precisar olhar para a sua juventude.
Sei lá quanto tempo demoraram. Pensei no ano de 1943, pulei para o de 1952, recitei mentalmente todos os poemas de Verlaine que sabia de cor, bole a história para um conto encomendado por uma editora e já estava disposto a vir embora quando o casal ressurgiu das matas.
Olhei bem a cara do homem. Era mais velho que eu, tinha uns 40 anos, ou mais. Aliança no dedo e anel de advogado ou de contador. Não olhei a cara da moça nem a blusa, para não ver as iniciais do colégio.
Novamente a saia azul-marinho, o joelho adolescente, a perna gordinha, o barulho da porta fechando, o ronco do motor, a capota sumindo pelas moitas de capim.
Estava só, novamente. Nada parecia ter acontecido ali. À minha frente, nada indicava ter um carro parado ali, o homem com anel no dedo, o joelho adolescente e forte, a saia azul-marinho de um colégio ignorado. Nem mesmo a marca dos pneus ficara no saibro castigado pelo peso do automóvel. Nenhum vestígio na manhã de sol.
Então vim embora, sentindo na garganta uma coisa amarga que me faz ainda ter vergonha de mim mesmo e, ao mesmo tempo, sentir uma impotente inveja das coisas que podem acontecer com os outros, tornando-me cúmplice e vítima de um mundo que eu não condeno, apesar de não amá-lo.
(texto extraído da página Ilustrada da Folha de S.P de hoje, 2/10/09)
Fui lá diversas vezes. Geralmente, ia de mãos abanando, apenas pelo prazer de andar, ter o sol e a manhã. Raramente levava um livro. De qualquer forma sempre sabia que ia para um lugar onde podia ficar sozinhi e tranquilo, pensar em coisas que aqui embaixo já ia perdendo o hábito de pensar.
Encostava a cabeça num pé de quaresmeira, que, em determinadas épocas do ano, em fevereiro, sobretudo, ficava roxo. Deixava o maço de cigarros ao lado e consumia minha manhã e minha liberdade procurando ressuscitar um trecho de minha vida, uma etapa de minha caminhada. Na realidade, nada ia procurar, deixando que a liberdade e a manhã me levassem a um roteiro que escolhia na hora, sem saber onde iria dar, nem mesmo se me daria em algum lugar.
Destacava um ano: 1943, por exemplo.
E começava por janeiro: Itaipava, passeios a cavalo, padre Castro Pinto lendo os telegramas que falavam da guerra, o tombo do Macário, a noite em que fiquei preso na despensa - a chave quebrara na fechadura e tive de dormir em cima dos sacos de farinha, só no dia seguinte vieram me buscar.
- Isso não foi em 1943. Foi em 42. Talvez em 44. Talvez no ano passado em Marienbad.
Pois, em manhã assim, ouvi de repente um ruído: o carro subia, gemendo, a velha estrada. Logo vi, coberto pelas moitas do capim mais alto, a capota do carro fazendo a curva e, logo depois, os gordos pneus, maltratados pelas pedras e pelo calor que o carro me trouxe subitamente quando estacou a minha frente.
- Desculpe, não viemos incomodar ninguém.
A frase era ociosa, mas o homem que saiu do volante julgou-se obrigado a dizer qualquer coisa. Eu poderia dizer coisa parecida, "também não quero incomodar ninguém", mas preferi ficar quieto e aguardar os acontecimentos, que logo começaram a acontecer.
O homem do volante deu a volta por trás do carro e abriu a outra porta. Do ângulo que estava, deitado quase no chão, não via quem vinha ali. E vi o primeiro uma perna gordinha e queimada de praia. Depois, um joelho adolescente, e logo uma saia azul-marinho.
Não olhei mais nada. Vi depois o vulto da colegial sumindo pelo início da mata, os cabelos louros batendo nos ombros, a blusinha justa falando de uma seiva que eu sentia sem precisar olhar para a sua juventude.
Sei lá quanto tempo demoraram. Pensei no ano de 1943, pulei para o de 1952, recitei mentalmente todos os poemas de Verlaine que sabia de cor, bole a história para um conto encomendado por uma editora e já estava disposto a vir embora quando o casal ressurgiu das matas.
Olhei bem a cara do homem. Era mais velho que eu, tinha uns 40 anos, ou mais. Aliança no dedo e anel de advogado ou de contador. Não olhei a cara da moça nem a blusa, para não ver as iniciais do colégio.
Novamente a saia azul-marinho, o joelho adolescente, a perna gordinha, o barulho da porta fechando, o ronco do motor, a capota sumindo pelas moitas de capim.
Estava só, novamente. Nada parecia ter acontecido ali. À minha frente, nada indicava ter um carro parado ali, o homem com anel no dedo, o joelho adolescente e forte, a saia azul-marinho de um colégio ignorado. Nem mesmo a marca dos pneus ficara no saibro castigado pelo peso do automóvel. Nenhum vestígio na manhã de sol.
Então vim embora, sentindo na garganta uma coisa amarga que me faz ainda ter vergonha de mim mesmo e, ao mesmo tempo, sentir uma impotente inveja das coisas que podem acontecer com os outros, tornando-me cúmplice e vítima de um mundo que eu não condeno, apesar de não amá-lo.
(texto extraído da página Ilustrada da Folha de S.P de hoje, 2/10/09)
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