mergulhem-se

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terça-feira, 19 de outubro de 2010

Quando já não era mais necessário - Marina Colasanti, Conto

"Beije-me", pedia ela no amor, quantas vezes aos prantos, a boca entreaberta, sentindo a língua inchar entre dentes, de inútil desejo.

E ele, por repulsa secreta sempre profundamente negada, abstinha-se de satisfazer seu pedido, roçando apenas vagamente os lábios no pescoço e o rosto. Nem se perdia em carícias, ou se ocupava em despir-lhe o corpo, logo penetrando, mais seguro no túnel das coxas do que no possível desabrigo da pálida pele possuída.

Com os anos, ela deixou de pedir. Mas não tendo deixado de desejar, decidiu afinal abandoná-lo, e à casa, sem olhar para trás, não lhe fosse demais a visão de tanto sofrimento.

Mão na maçaneta, hesitou porém. Toda a sua vida passada parecia estar naquela sala, chamando-a para um último olhar. E, lentamente, voltou a cabeça.

Sem grito ou suspiro, a começar pelos cabelos, transformou-se numa estátua de sal. Vendo-a tão inofensivamente imóvel, tão lisa, e pura, e branca, delicada como se translúcida, ele jogou-se pela primeira vez a seus pés.

E com excitada devoção, começou a lembê-la.

(extraído de Contos de amor rasgados, Marina Colasanti, Ed. Record)

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Conto de Fadas - Robert Desnos

Era uma vez e muitas outras
Um homem que amava uma mulher
Era uma vez e muitas outras
Uma mulher que amava um homem
Era uma vez e muitas outras
Uma mulher e um homem
Que não amavam aquele e aquela que os amava.

Era uma vez somente
Uma só vez talvez
Uma mulher e um homem que se amavam.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

11. - Fernando Pessoa

LITANIA

Nós nunca nos realizamos.

Somos dois abismos - um poço fitando o céu.



(Bernardo Soares, do Livro do Desassossego)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Li um dia, não sei onde - Florberla Espanca















Li um dia, não sei onde,
Que em todos os namorados
Uns amam muito, e os outros
Contentam-se em ser amados.

Fico a cismar pensativa
Neste mistério encantado...
Diga prá mim: de nós dois
Quem ama e quem é amado?...





Florbela Espanca (1894 - 1930), foi uma poetisa portuguesa. Suicidou-se aos 36 anos após o diagnóstico de um edema pulmonar.

domingo, 12 de setembro de 2010

Paludes - André Gide

Pequeno romance para ler em uma tarde. A escrita lenta e ao mesmo tempo fluida (longe de algumas chatices do realismo) trás muito mais a sensação do que a significa do que a estrutura de um pensamento filosófico (que de fato há, mesmo que Gide nem o saiba). Parece de fato uma critica/sátira ao mundo simbolista de Paris que Gide frequentava, os grandes encontros entre literatos e intelectuais num retrato também de discussões modorrentas. Dizem que Gide, em sua vida, e em todas as suas obras esteve a procura de uma verdade interior onde pudesse se igualar à si mesmo; Paludes parece um prenúncio desta busca onde questiona a inércia e a falsa felicidade dos homens (que fecham os olhos para a sua infelicidade e não se movem). Em romances posteriores Gide parece se apoderar mais destes questionamentos ao falar sobre o "ato puro".

Paludes é também um exemplo de "reduplicação" na obra artística, já que o personagem-narrador do livro está justamente escrevendo um romance que se chama "Paludes" e ao citá-lo vez ou outra no livro não sabemos à qual dos dois romances (o que estamos lendo x o que o personagem escreve) o autor está se referindo. Uma situação parecida ocorre em "Os Moedeiros Falsos" de Gide em que o personagem também escreve um romance homônimo.

Prefácio de Gide para o livro:

"Antes de explicar meu livro aos outros, espero que outros mo expliquem. Querer explicá-lo primeiro é limitar-lhe desde já o sentido; pois se sabemos o que queríamos dizer, não sabemos se estávamos dizendo apenas isso. Sempre dizemos mais do que ISSO. E o que me interessa acima de tudo é o que eu coloquei nele sem saber, essa parte de inconsciente, que gostaria de chamar a parte de Deus. Um livro é sempre uma colaboração, e o livro vale tanto mais, quanto menor é a parte do escriba e maior a participação de Deus. Esperemos de todos os lados a revelação das coisas; do público, a revelação de nossas obras."


Paludes
André Gide
Ed. Nova Fronteira
125 págs


domingo, 15 de agosto de 2010

O jardim de cimento - Ian McEwan, Romance

Esse é o primeiro romance de McEwan, e de todos os que li até agora, sinto que é o melhor. Parece que aqui sim, McEwan acerta com sua habilidade técnica literária para uma história genial que exige desenvoltura. Não dá para julgá-la, senão como obra isolada, tamanha a diferença com outros livros do mesmo autor - por exemplo "Na Praia" que não é nada demais. A narrativa pragmática, detalhada, (distanciada até), aparentemente fria ou mórbida e sem qualquer psicologismo de McEwan adentra o universo de uma família completamente absurdo e a transforma em algo impressionantemente natural (além de curioso, gostoso de ler também pelo clima de tensão sempre muito bem pensado).

Quatro irmãos (Julie, 17, Jack, 15, Sue, 12, Tom, 6), perdem os pais repentinamente logo no começo do livro, ao manterem isso em segredo passam a viver sozinhos na casa isolada da família. O enredo se constrói a partir de então quando eles tém a possibilidade de experimentar uma sensação extrema de liberdade e perda que se misturam do começo ao fim. Antes que ninguém externo descubra o fato ocorrido, passam-se meses em que as personagens vivem à margem da moral social, se descobrindo, estreitando o laço entre si (que passa da fraternidade, maternidade, até o erotismo), transformando também as relações consigo mesmo (numa auto-descoberta e amadurecimento contínuo) e até na relação com a casa onde vivem. São rumos inusitados para situações inusitadas que de acordo com a naturalidade que são desenvolvidas nos faz acreditar que era assim mesmo que as coisas deveriam ser feitas.

É impressionante a habilidade "cirúrgica" de McEwan costurando com domínio e precisão todo desencadeamento dos fatos. Além da originalidade com que são contados.





O jardim de cimento
Ian McEwan
Ed. Companhia de Bolso
129 páginas

sábado, 7 de agosto de 2010

Poemacto I - Herberto Helder, Poesia...

Deito-me, levanto-me, penso que é enorme cantar.
Uma vara canta branco.
Uma cidade canta luzes.
Penso agora que é profundo encontrar as mãos.
Encontrar instrumentos dentro da angústia:
clavicórdios e liras ou alaúdes
intencionados.
Cantar rosáceas de pedra no nevoeiro.
Cantar sangrento nevoeiro.
O amor atravessado por um dardo
que estremece o homem até às bases.

Cantar o nosso próprio dardo atirado
ao bicho que atravessa o mundo.
Ao nome que sangra.
Que vai sangrando e deixando um rastro
pela culminante noite fora.
Isso é o nome do amor que é o nome
do canto. Canto na solidão.
O amor obsessivo.
A obsessiva solidão cantante.
Deito-me, e é enorme. É enorme levantar-se,
cegar, cantar.
Ter as mãos como o nevoeiro a arder.

As casas são fabulosas, quando digo:
casas. São fabulosas
as mulheres, se comovido digo:
as mulheres.
As cortinas ao cimo nas janelas
faíscam como relâmpagos. Eu vivo
cantando as mulheres incendiárias
e a imensa solidão
verídica como um copo.
Porque um copo canta na minha boca.
Canta a bebida em mim.
Veridicamente, eu canto no mundo.

Que falem depressa. Estendam-se
no meu pensamento.
Mergulhem a voz na minha
treva como uma garganta.
Porque eu tanto desejaria acordar
dentro da vossa voz na minha boca.
Agora sei que as estrelas são habitadas.
Vossa existência dura e quente
é a massa de uma estrela.
Porque essa estrela canta no sítio
onde vai ser a minha vida.

Queimais as vossas noites em honra
do meu amor. O amor é forte.
Que coisa forte que é a loucura.
Porque a loucura canta minada de portas.
Nós saímos pelas portas, nós
entramos para o interior da loucura.
As cadeiras cantam os que estão sentados.
Cantam os espelhos a mocidade
adjectiva dos que se olham.
Estou inquieto e cego. Canto.
A morte canta-me ao fundo.
É um canto absoluto.

Imagino o meu corpo, uma colina.
Meu corpo escada de estrela.
Nata. Flecha. Objecto cantante.
Corpo com sua morte que canta.
Imagino uma colina com vozes.
Uma escada com canto de estrela.
Imagino essa espessa nata cantante.
Uma que canta flecha.
Imagino a minha voz total da morte.
Porque tudo canta e cantar é enorme.

Imagino a delicadeza. A subtileza.
O toque quase aéreo, quase
aereamente brutal.
Ser tocado pelas vozes como ser ferido
pelos dedos, pelos rudes cravos
da planície.
Ser acordado, acordado.
Porque cantar é um subterrâneo.
Depois é um pátio.
Imagino que as vozes são escadas.
Vozes para atingir o canto.
O canto é o meu corpo purificado.

Porque o meu corpo tem uma sua morte
tocada incendiariamente.
A morte - diz o canto - é o amor enorme.
É enorme estar cego.
Canta o meu grande corpo cego.
Reluzir ao alto pelo silêncio dentro.
O silêncio canta alojado na morte.
Deito-me, levanto-me, penso que é enorme cantar.



(do livro "Ofício Cantante", poesia completa, Herberto Helder, ed. Assírio & Alvim)

domingo, 18 de julho de 2010

L'accent grave - Jacques Prevért

Le professeur
Élève Hamelet!

L'élève Hamelet (sursautant)
...Hein... Quoi... Pardon... Qu'est-ce qui se passe...
Qu'est-ce qu'il y a ... Qu'est-ce que c'est?...

Le professeur (mécontent)
Vous ne pouvez pas répondre "présent" comme tout le monde ? Pas possible, vous êtes encore dans les nuages.

L'élève Hamelet
Être ou ne pas être dans les nuages!

Le professeur
Suffit. Pas tant de manières. Et conjuguez-moi le verbe être, comme tout le monde, c'est tout ce que je vous demande.

L'élève Hamelet
To be...

Le professeur
En Français, s'il vous plaît, comme tout le monde.

L'élève Hamelet
Bien, monsieur. (il conjugue:)
Je suis ou je ne suis pas
Tu es ou tu n'es pas
Il est ou il n'est pas
Nous sommes ou nous ne sommes pas...

Le professeur (excessivement mécontent)
Mais c'est vous qui n'y êtes pas, mon pauvre ami !

L'élève Hamelet
C'est exact, monsieur le professeur,
Je suis "où" je ne suis pas
Et dans le fond, hein, à la réflexion,
Être ou ne pas être
C'est peut-être la question.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Give Me Women, Wine, and Snuff - John Keats, Poesia..

no original:

Give me women, wine, and snuff

Give me women, wine, and snuff
Untill I cry out "hold, enough!"
You may do so sans objection
Till the day of resurrection:
For, bless my beard, they aye shall be
My beloved Trinity.



----traduzindo----


Dê-me mulheres, vinho e rapé

Dê-me mulheres, vinho e rapé
Até eu gritar "basta!"
Pode fazê-lo sem objeção
Até o dia da ressurreição:
Abençoe a minha barba, pois ela sim deve ser
Minha adorada Trindade.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Oceano Mar - Alessandro Baricco, Romance

[se eu tivesse que esconder meu nome (minha alma, minha palavra, meu corpo) em um livro seria esse] [em colchetes para ninguém ouvir]

Poesia em forma de prosa (que poderia também ser um ensaio filosófico, um romance, ou uma espécie de bíblia com os axiomas mais ímpios do oceano inscritos aqui e formulados em algum lugar qualquer do universo etc etc), Alessandro Baricco descorre um tratado sobre o mar que só quem o conhece, mergulhou de fato em seu infinito ventre (e falo sobre a intensidade e não quantidade - um único banho às vezes basta) poderá sentir do que se fala, se vomita, se música, se palavra, se mar. É espelhar a si mesmo, horrível e doce. Certo e incerto como só o mar, "no mar nunca se sabe".

O Romance conta (canta?) muitas histórias, são personagens que se desdobram e se mergulham através do contato com o oceano, protagonista principal deste livro. Um navio da marinha francesa que naufraga; um pintor, Plasson, que mantém uma obsessão pelo mar e só consegue pintar coisas que estejam intimamente conectadas à ele, tanto que molha seus pincéis, em uma meta-linguagem linda, em águas do mar para pintar. Bartleboom, um cientista que quer descobrir onde termina o mar e escreve cartas de amor à mulher da sua vida que ainda não conheceu; Elisewin, menina doente que sai de seu castelo acompanhada pelo tutor, Padre Pluche, para curar-se no mar; Adams e Savigny, náufragos; crianças estranhas e mágicas; um velho que benze o mar... E tantos outros que chegam e se transformam ao redor da estalagem Almayer bem em frente
ao mar.

"A única pessoa que realmente me ensinou alguma coisa, um velho que se chamava Darrell, dizia sempre há três tipos de homens: os que vivem diante do mar, os que se lançam ao mar, e os que do mar conseguem voltar, vivos. E dizia: você verá que surpresa quando descobrir quais são os mais felizes." pág 118

"- Não complique as coisas, Padre Pluche, a questão é simples. O senhor acredita realmente que Deus existe?
- Bem, agora, existir parece-me um termo meio excessivo, mas creio que ele esteja, é isso, de um jeito muito particular, esteja." pág 94

"Mas depois a vida não se desenrola do jeito que você imagina. Faz o seu caminho. E você o seu. E não é o mesmo caminho. Assim... Não que eu quisesse ser feliz, isto não. Queria... salvar-me, é isso: salvar-me. Mas compreendi tarde de que lado era preciso seguir: do lado dos desejos. A gente espera que sejam outras as coisas que salvam as pessoas: o dever, a honestidade, sermos bons, sermos justos. Não. Os desejos é que salvam. São a única coisa verdadeira. Você fica com eles e será salva. Mas eu compreendi isto tarde demais. Se você der tempo à vida, ela toma um rumo estranho, inexorável: e você percebe que àquela altura não pode desejar algo sem se machucar. É quando tudo vai para o espaço, não há como escapar, mais você se agita e mais a rede se emaranha, mais você se revolta e mais você se fere. Não há como sair. Quando era tarde demais, eu comecei a desejar. Com toda a força que tinha. Machuquei-me tanto, mas tanto que você nem pode imaginar." pág 79, 80





Oceano Mar
Alessandro Baricco
trad. Roberta Barni
Ed. Iluminuras
222 págs








Alessandro Baricco (Turim, 25 de janeiro de 1958) é um escritor, crítico musical e diretor italiano, um dos mais importantes da ficção italiana contemporânea.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Senhora dos olhos lindos, dai-me a esmola de um olhar - Mário de Sá-Carneiro, Poesia...

Senhora dos olhos lindos,
Por que é que sois tão cruel?
As pombas não têm fel,
E vós sois pomba, senhora...
Tormentos vários, infindos,
Sem dó, me fazeis sofrer...
Morto, vós me qu'reis ver,
Não é verdade, traidora?
Respondei! Ficais calada!
Neste caso, adivinhei...
Pois muito bem! morrerei...
Morrerei, sem ter pesar!...
Minha vida amargurada
Eu vos vou dar, deusa qu'rida...
Antes porém da partida
Dai-me a esmola de um olhar.



(Sá-Carneiro por Almada Negreiros)



Mário de Sá-Carneiro (1890 - 1916) foi um escritor português, muito amigo de F.Pessoa. Se matou aos 26 anos engolindo 5 frascos de arseniato de estricnina num hotel de Paris.

domingo, 27 de junho de 2010

Dispersão - Mário de Sá-Carneiro, Poesia...

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).

O pobre moço das ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.

A grande ave dourada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-se saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projecto:
Se me olho a um espelho, erro-
Não me acho no que projecto.

Regresso dentro de mim,
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.

Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi...Mas recordo

A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!...)

E sinto que a minha morte -
Minha dispersão total -
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.

Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas...

Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas para se dar...
Ninguém mas quis apertar...
Tristes mãos longas e lindas...

E tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?...Ai de mim!...

Desceu-me n'alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida,
Eu sigo-a mas permaneço...

...........................
...........................

Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba...

...........................
...........................

Paris, Maio de 1913
(Obra Poética Completa, Mário de Sá-Carneiro, Publicações Europa-América)

quinta-feira, 24 de junho de 2010

As Brasas - Sándor Márai, Romance

Estou em um estado de fascinação tal que é pretensioso querer que as palavras me imitem. Sempre tenho o cuidado de escrever sobre um livro logo após terminá-lo para que as minhas impressões saiam da forma mais viva e genuína possível. Embora isso tenha me funcionado bem, muitas vezes não me parece saudável no ponto em que eu não estou preparada para terminar de digeri-lo. Enfim. Que saia o indigesto. Peço desculpas se for passional demais.

Sandor Márai neste texto se apresenta com uma fluidez, elegância e densidade que é quase impossível não entrar na dança - uníssono do romance. É como escutar a voz grossa de Nina Simone, bruta e ao mesmo tempo lisa. Espessa e lisa. Somos tomados pelo texto. Sedimentados pelo texto e fluímos para dentro de si mesmos com carinho - não só, mas delicadamente sempre. Sándor Márai consegue ser profundo sem ser ácido, consegue enfeitiçar-nos sem machucar tanto quanto Clarice e outros; nos situa no tempo e espaço sem ser excessivo como algum escritor desses realistas; profundo sem abusar da nossa capacidade de suportar sentimentos. Ele vai na medida assim como Hermann Hesse tão piedoso com as nossas feridas, mas sem ignorá-las, alcançando-as mansamente.

A história de "As Brasas" se passa em um castelo da Hungria, onde um velho general do império austro-húngaro recebe a visita de um antigo amigo após quarenta e um anos sem vê-lo, desde que este último desaparecera repentinamente sem dar explicações. O motivo de seu desaparecimento? É o que com esse retorno esperamos desvendar. Algo acontecera na véspera deste desaparecimento, um segredo o qual os separaram por quarenta e um anos e que Sándor Márai desnovela através de solilóquios (lindos, diga-se de passagem) feitos pelo anfitrião ao visitante, que acabam por ocupar quase o livro inteiro. Sándor Márai parece saber muito sobre a solidão humana, após tantos anos exilados, anos de espera e é assim que toma a boca do personagem ao relatar os quarenta e um anos que dividem o encontro dos dois amigos. É um romance que fala de paixão, honra, solidão, mas sobretudo amizade - o fio que deve sustentar o homem através da vida, algo que não desvendamos, mas inevitável não encarar.

"Viveram lado a lado desde o primeiro instante, como gêmeos no útero materno. Não precisaram fazer pactos de amizade como costumam fazer os garotos dessa idade, que se lançam com paixão e ostentação a rituais ridículos e solenes, dessa forma inconsciente e grotesca com que o desejo se manifesta entre os homens, quando decidem pela primeira vez arrancar do resto do mundo o corpo e a alma de outra pessoa para possui-la com exclusividade. O sentido do amor e da amizade estava todo ali. A amizade deles era séria e silenciosa como todos os grandes sentimentos destinados a durar uma vida inteira. E como todos os grandes sentimentos, também continha certa dose de pudor e de culpa. Ninguém pode se apropriar impunemente de uma pessoa, subtraindo-a de todas as outras." As Brasas, página 32


As Brasas
Sándor Márai
Cia das Letras
172 páginas








Sándor Márai (11 de abril de 1900 — 22 de fevereiro de 1989), foi um escritor e jornalista húngaro (nascido no atual território da Eslováquia)

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Uma vez - Paul Celan, poesia

Uma vez, estando a Morte repleta de clientes,
tu em mim te abrigaste.

domingo, 6 de junho de 2010

Na Praia - Ian McEwan, Romance

Este livro de Ian McwEan, lançado em 2007, conta a história de Edward e Florence, passado em Julho de 1962, virgens e recém-casados em sua lua de mel, prestes a passarem sua primeira noite juntos. A tensão do romance está entre as diversas e diferentes espectativas do casal; Edward entusiasmado e sonhador e Florence com uma certa repulsa, ambos sem poder demonstrá-lo.

Eu tenho que tomar cuidado para não falar mal, errôneamente, deste livro. Mas confesso que desde o comecinho eu tive que me esforçar bastante para não abandoná-lo. Pareceu-me por hora estar lendo um livro infanto-juvenil; não pelo tema que embora pareça clichê "Eram jovens, educados e ambos virgens nessa noite, sua noite de núpcias, e viviam num tempo em que conversar sobre as dificuldades sexuais era completamente impossível" (de acordo com o primeiro parágrafo do livro) mas pelo seu desenvolvimento; o tema não é coisa que bloqueie minha vontade de ler, pois acredito muito mais no "como" do que no "o quê" e por isso me mantive firme desde a sinopse até a última palavra. Aliás, considero por vezes um desafio muito maior tratar de temas tão clichês e transformá-los de alguma forma, mas é preciso fazê-lo bem, senão a coisa se torna previsível e chata.

Pois, McEwan não conseguiu me surpreender no "como", e como o tema já me era passado, o livro ficou por isso mesmo. Não sei bem como dizer isso, mas achei-o por vezes "legível" demais, tudo é muito explicado, até didaticamente, o que deixa o livro um pouco entediante, não me é possível advinhar muitas coisas. Claro que também não posso identificá-lo como mal escritor (não poderia mesmo, pois não li nenhuma outra obra sua), ele demonstra dominar muito bem as táticas literárias e é preciso na alternancia entre os pontos de vista de Edward e Florence, radiografando seus pensamentos e motivações internas, contrapostas também com suas atmosferas sociais e a própria da época. Além disso, talvez o maior mérito do livro seja o envolvimento que Mcwean consegue passar através de um clima de tensão crescente (principalmente do meio para o fim), onde o leitor se sente ansioso à medida que o tempo avança para o final inevitável, clímax que com certeza é a melhor parte do livro. Outra coisa interessante é que McEwan escolhe justamente o ano de 1962 para tratar de um tema que logo depois seria "arregaçado" com a Revolução Sexual de 68. Pode ser como se Florence e Edward representassem o último fio daquela postura pudica até então.

Na Praia
Ian McEwan
Ed. Cia das Letras
128 páginas



Ian McEwan (Aldershot, 21 de Junho de 1948), é um escritor britânico da atualidade.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O Fio da navalha - W. Somerset Maugham, Romance












"A noite é escura / E o caminho é tão longe que me leva a loucura / Andando e dançando / No fio da navalha / Eu sou o faquir / Eu sou o palhaço / E um grande canalha" (Estrela da Noite, Jorge Mautner)



Certo. Neste fio de navalha, o qual percorre a vida, há sutilmente dividido de cada lado o dentro e o fora. E eu estou inclinada a achar, como Larry Darrel, personagem central deste livro, que a verdade está mais dentro do que fora. Certo, não cristalizemos a verdade, deixe que ela exista em qualquer lugar: mas entendo, ou melhor, sinto, que a minha verdade - e penso que nenhuma mais poderá me ser tão válida - está dentro, completamente dentro desta minha carcaça (elétrica, por sinal). Talvez seja um pouco utópico sugerir que não somos obrigados a viver da forma com que a repetição geracional nos impele e que esta coisa a qual se define como a rotina padrão mundial é sim coisa que existe para ser rompida; que o casamento, trabalho, filhos, fordismo, comunismo, almoço, bom dia, diplomas, é só mais uma forma de experienciar nossa pequena passagem pela terra e que por não conhecermos outra forma não quer dizer que não exista. Sim, existe (aqui lanço a sugestão, utópica ou não, com o perdão da palavra: foda-se.) Há mais verdade dentro de nós do que fora: Há o que o nosso corpo pulsa. Há "vim ao mundo à passeio". Há "vim vadiar". Há "espontaneidade". Há "prefiro não". Mas não pretendo fazer nenhum tratado, de forma que sinto que estou falando isso mais para mim mesma, numa espécie de auto-convencimento, do que para qualquer outra pessoa. Enfim.

Maugham (que descobri pronunciar-se "môme") neste romance, conta a história de um homem (Larry) que afetado pela Primeira Guerra Mundial, onde participou como aviador; perdido, desiludido, traumatizado ou quem sabe 'libertado', que seja, desestrutura sua visão de mundo e decide ir em busca daquilo que para ele seria alguma espécie de essência pulsional. Para isso renuncia aos estudos acadêmicos, à oportunidades de trabalho, ao seu noivado etc, e inicia uma viagem pela Europa (e mais tarde para outros lugares) com a intensão apenas de "vadiar". Entendo que "vadiar" possa remeter diretamente a alguma espécie de diversão irresponsável, não é bem à isso que Lary se refere, mas o termo casa bem com o "sem ofício e sem emprego", em rumo de não sei o quê, não sei quando e não sei aonde, com a esperança que possa achar algo de si mesmo. Ao redor de Larry, outras personagens se tecem, fazendo uma boa representação dos tipos daquele início de século XX (e que sem esforço podemos atualizar para hoje); desde aqueles que consideram a cultura uma posse exclusiva de uma elite estanque, em que ser culto é uma condição de status social e não por ter conhecimento, passando pelos variados artistas, até aqueles que buscam a autodestruição das drogas, do álcool, da farra de alguma forma insensata. Toda a futilidade e mesquinhez desta época aparece através deste núcleo que em algum instante também tenta convencer Larry à "endireitar-se", sem compreender de ângulo algum suas escolhas.

O livro pode ser visto também como um confronto de um mundo velho contra um mundo novo instável em incessante transformação, com suas infinitas direções. Mundo velho muito bem representado pela figura de "Elliot" que antes brilhava no meio social e termina o livro em seu leito de morte sem ser convidado para uma festa, a qual considerava de suma importância. Tudo isso registrado e narrado por um personagem-escritor, que se diz o próprio Maugham, desde o fim da Primeira Guerra, passando pela crise de 29, até provavelmente o inicio da Segunda Guerra. De minha impressão escrita, c'est ça. O resto são sensações.

"- Pobre Larry - disse ela, rindo baixinho. - O senhor não me vai dizer que ele está aprendendo grego para assaltar um banco.
Também Ri.
- Não vou, não; o que estou tentando dizer-lhe é que há homens que sentem tão intenso desejo de fazer uma determinada coisa que não podem absolutamente deixar de fazê-la. Estão dispostos a sacrificar tudo para satisfazer esse anseio.
- Até mesmo as pessoas que gostam deles?
- Oh! Sim.
- Não acha que isso é puro egoísmo?
- Não sei dizer - respondi sorrindo.
- Que útilidade prática pode ter para Larry o estudo de línguas mortas?
- Algumas pessoas tem um desejo desinteressado de adquirir cultura. Não se pode dizer que seja um desejo ignóbil.
- Mas de que adianta a cultura se a pessoa não pretende utilizá-la?
- Talvez ele pretenda. Talvez só o fato de saber seja uma satisfação, como ao artista basta a satisfação de produzir uma obra de arte. E talvez seja só um passo para coisa mais avançada.
- Se ele tem tanta sede de saber, porque não foi então para o colégio quando voltou da guerra? Era o que o dr. Nelson e mamãe queriam que ele fizesse.
- Falei com Larry sobre isso em Chicago. Um diploma de nada lhe adiantaria. Pareceu-me que ele tinha uma idéia exata do que queria, mas sentia que não ia encontrar satisfação numa universidade. Você sabe, no estudo existe o lobo solitário, da mesma maneira que existe o lobo que se move com a alcateia. Acho que Larry é uma dessas pessoas que não podem tomar outro caminho a não ser o seu próprio." (trecho da conversa entre o narrador-personagem e Isabel, pág 157, 158)



O Fio da Navalha
W. Somerset Maugham
Ed. Globo de Bolso
558 págs



mais de Maugham

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Espera - Bertold Brecht

O sr. K. esperou algo por um dia, depois por uma semana, e depois ainda por um mês. Por fim ele disse: "Um mês eu poderia muito bem esperar, mas não este dia e esta semana".


(do livro "Histórias do sr. Keuner", Bertold Brecht, tradução de Paulo César de Souza, Editora 34)

domingo, 18 de abril de 2010

Capitaine Haddock - Tintin - Hergé, Quadrinhos..



Quadrinho 2: Isso, p-p-por exemplo! Meu Whisky-ky que se transforma em uma b-b-bola... N-N-Não é... p-p-possível, vejam! Será que eu j-j-já estou muito b-b-bêbado?

Quadrinho 3: Muito b-b-bêbado ou não... um Whisky honesto n-n-não se comporta dessa ma-maneira!... Vamos, aqui, e-e-e imediatamente!...


(do livro Les Aventures de Tintin, On a Marché sur la Lune - Hergé.... As aventuras de Tintin, Explorando a Lua)

segunda-feira, 8 de março de 2010

Vinte e quatro horas na vida de uma mulher - Stefan Zweig, Novela

Esta novela evoca completamente a paixão. A rotina de um hotel em Riviera (França) é quebrada após a chegada de um jovem bonito e simpático qual todos ficam encantados. Passados dois dias o jovem vai embora e leva com ele em fuga uma das hospedes - Madame Henriette - a qual acabara de conhecer. Inicia-se uma discussão entre todos no hotel por acharem um absurdo que esta possa ter abandonado marido e filhas por um homem que mal conhecia. O narrador-personagem, entretanto, faz questão de evidenciar os preconceitos alheios e argumentar que ela poderia muito bem ter fugido por uma paixão repentina e violenta. Uma senhora inglesa se interessa e parece entender as argumentações do narrador e o toma como confidente para contar 24h de sua vida em que foi completamente tomada pela paixão, as quais preenchem e descorrem o resto da novela. Assim Zweig evoca o fascínio da protagonista pelas mãos de um homem cativo pelo jogo: "o que me surpreendeu inicialmente de modo tão terrível foi sua febre, sua expressão loucamente apaixonada, este modo convulsivo de se estenderem e lutarem entre si. Compreendi ali imediatamente, era um homem cuja força transbordava e que concentrava toda sua paixão nas extremidades de seus dedos, para que esta não causasse a explosão de todo o seu ser." (Mrs C. em confissão ao narrador)

É impressionante o estado obsecado, intenso, explosivo, pálido (etc), com que são caracterizados os personagens em relação ao objeto de desejo. Ao buscar na memória o significado etimológico de 'paixão' lembro que se refere diretamente ao "sofrimento". (Paixão, do verbo latino, patior, que significa sofrer ou suportar uma situação difícil) Ou seja, dizer-se apaixonado é confessar, sem o saber, a disposição para o sofrimento. O ser mergulhado neste estado encontra-se encharcado, tomado, contra a sua vontade, por um objeto do qual afirma não poder se privar. Zweig molda de forma precisa (ou imprecisa já que falamos de paixão) o modo com que se move o sujeito confrontado pela paixão, chega a ser fúnebre vez ou outra - sim, são casos de vida e morte, do patético à tragédia, do fetichismo compulsivo do colecionador à fixação toxicomana, até o distanciamento da loucura. "A identidade fatal do apaixonado nada mais é do que: eu sou aquele que espera" diz Roland Barthes, e então, apaixonados, terminamos no exílio.


Vinte e Quatro horas na vida de uma mulher
Stefan Zweig
Ed Record
237 págs

(Além da história que dá nome ao título, este livro conta com mais duas novelas, "Confusão de Sentimentos" e "Declínio de um Coração")



Stefan Zweig (1881 - 1942) foi um escritor austríaco. Morou no Brasil, Petrópolis, em sua segunda metade da vida, onde se suicidou.

domingo, 7 de março de 2010

Federico Garcia Lorca, citando...

"La nieve cae de las rosas,
pero la del alma queda"


(do poema Cancion Otoñal - Federico Garcia Lorca)